Resenha: Residente – Residente

Reprodução da capa do álbum (© Fusion Media Group)

Se com o Calle 13 o cantor porto-riquenho Residente nos leva a viagens sonoras pela América Latina com seu meio-irmão Visitante, em sua aventura solo ele decidiu atravessar os oceanos e explorar sons do resto do mundo. Em 13 faixas, o músico nascido como René Perez Joglar vai à Sibéria, à África, à China, ao Cáucaso e a Paris, muitas vezes misturando elementos de outros lugares.

A escolha das etapas desta longa viagem não foi aleatória: Residente realizou um teste de DNA para descobrir as origens de seu código genético e surpreendeu-se ao constatar os locais de suas raízes. Motivado, viajou para todos esses lugares e gravou com músicos locais, desconhecidos em sua maioria.

O resultado da “salada” dialoga diretamente com o clipe de “Somos Anormales” (veja abaixo), primeiro single do trabalho, e cuja mensagem é clara: somos diferentes, mas viemos do mesmo lugar. Os meios utilizados para propagar tal recado podem chocar tanto os mais conservadores (vide o supracitado vídeo) quanto os progressistas de sofá que “estudam” sociologia por meio de posts no Facebook e provavelmente reagiriam com um “ui, apropriassaum cuturau”, mas o que temos é um discaço incontestável.

A tese geral de Residente é didaticamente comentada na abertura “Intro ADN / DNA”, onde o premiadíssimo ator e compositor Lin-Manuel Miranda narra como ele e Residente descobriram serem primos distantes e depois manda um rap com reflexões sobre a genética. Em seguida, chegamos ao primeiro single “Somos Anormales”. A letra tem aquela levada bem humorada típica do porto-riquenho, mas é um caso em que o vídeo fala muito mais que as palavras. Se você não for da turma do “mds uma vajina nunca vi iço”, confira você mesmo ao final da resenha. Musicalmente, é um trabalho dos mais interessantes, misturando um ritmo tribal com a impressionante performance dos cantores difônicos da Ásia Central, capazes de manipular suas vozes de um jeito que deixaria Bobby McFerrin com inveja. A terceira faixa, “Interludio Entre Montañas Siberianas”, dá dois minutos e meio para esses artistas exibirem um pouco mais suas habilidades.

O segundo single, “Desencuentro”, é a faixa menos empolgante do álbum, mesmo com a participação da cantora francesa SoKo, o que é compensado com um belo e divertido clipe – ambos (canção e clipe) têm um final inexplicavelmente abrupto.

A visita à China nos rende duas faixas: uma bela canção chamada “Una Leyenda China”, com um instrumental certeiro que nos transporta imediatamente para o país da Grande Muralha; e outra mais bela ainda, “Apocaliptico”, combinando serenos vocais chineses, os sinistros órgãos da Temple Church de Londres e do Palácio da Música Catalã de Barcelona, e os fortes versos de Residente, no melhor estilo “Respira el Momento” e “Calma Pueblo”.

Antes de “Apocaliptico”, temos um tema parecido em “Guerra”, outro ponto alto do disco com vocais dramáticos e instrumental tenso. Trata-se de um trabalho que causa ainda mais admiração quando você descobre que ele foi gravado em meio a bombas no Azerbaijão e envolveu pessoas dos dois lados do conflito da Ossétia.

Da África, ganhamos “Interludio Haruna Fati”, prelúdio quase a cappella para “Dagombas en Tamale”, em que uma tribo dagomba de Gana acompanha o rap de Residente com uma cativante batucada; “Milo”, homenagem a seu filho também gravada em Gana e introduzida por cordas que nos remetem a “Baile de los Pobres”; e “La Sombra”, funk étnico com aroma de blues criado em Burkina Faso com o icônico guitarrista tuaregue Bombino, cujo trabalho nas seis cordas nos leva a mais um ponto alto do álbum e me deixa curioso para saber o que sairia de uma parceria dele com Carlos Santana.

Encerrando o disco, temos “El Futuro Es Nuestro”, divertida peça de funk/reggaeton cujas letras são uma tentativa cômica de prever um futuro em que baratas serão alimentos e a lua não existirá mais como consequência de uma detonação terrorista; e “Hijos del Cañaveral”, bonita canção sobre o local onde a viagem genética de Residente termina e a viagem de sua vida começa: sua pátria mãe, Porto Rico. A irmã do cantor, que agora atende pelo nome de ILE, participa nos vocais de apoio.

Quanto mais você ouve Residente, mais você quer ouvi-lo de novo. É incrível como apenas 13 faixas de duração normal bastaram para Residente captar e condensar tantas coisas pouco palatáveis para um artista mediano – coisa que ele, sem sombra de dúvidas, está longe de ser.

Nota = 5/5. Se eu fosse escrever tudo o que senti ouvindo Residente, 11 parágrafos não dariam nem para metade do texto. Por isso, convido o leitor a ouvir a experiência que é este projeto – que envolve também um documentário e um livro – e tirar suas próprias conclusões. Você pode até não ficar tão impressionado quanto eu, mas duvido que não se sinta tocado de alguma forma.

Abaixo, o vídeo de “Somos Anormales”:

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Resenha: Multi_Viral – Calle 13

Breve histórico: prestes a completar uma década de vida, a dupla Calle 13, formada pelos meio-irmãos Residente (René Pérez Joglar) e Visitante (José Cabra Martínez) já é um dos grupos mais relevantes da América Latina, o que é comprovado pelos 19 Grammy Latinos que ganhou – um recorde – e os três Grammys. A dupla combina dois elementos bem explosivos musicalmente: um vocalista/letrista capaz de criar as mais ácidas, profundas e inteligentes rimas (Residente) e um multi-instrumentista/compositor habilidoso e sempre em busca de novos sons para sua música (Visitante). Ocasionalmente, pode-se dizer que a banda é um trio, uma vez que um terceiro membro da família, a irmã Ileana Cabra Joglar (PG-13) também costuma participar como vocalista.

Reprodução da capa do álbum (© El Abismo)

Reprodução da capa do álbum (© El Abismo)

3,5 anos separam Multi_Viral de seu antecessor Entren los Que Quieran, que se mostrou um marco na carreira do Calle 13, evidenciado pelos inúmeros prêmios conquistados e aparições nas paradas, tanto do disco em si quanto de seus múltiplos singles. Certos grupos podem se sentir pressionados pelo sucesso de um disco, forçando-se a produzir algo melhor. Não foi o que aconteceu com o Calle 13. O que se vê, ou melhor, se ouve aqui, é apenas uma banda seguindo seu caminho natural, sem afobação e sem enrolação.

O álbum abre com “Intro – El Viaje”, uma serena melodia nas seis cordas por Visitante e acompanhada pelas primeiras linhas do livro El Viaje, do escritor uruguaio Eduardo Galeano – declamadas pelo próprio! A faixa segue para “Respira el Momento”, que de tão épica e empolgante, poderia ser considerada uma segunda introdução, e sem dúvidas, uma ótima escolha para abrir o disco.

Vem então um breve interlúdio de nome curioso: “Un Buen Día Para Morir”, marcado por uma percussão simples e um canto aparentemente indígena. Este desemboca em “El Aguante”, o segundo single divulgado. Estruturada por melodias e ritmos irlandeses, a faixa enumera uma série de conflitos, guerras, regimes e ditaduras que a humanidade teve de “aguentar” – daí o nome.

A faixa seguinte, “Ojos Color de Sol”, é uma colaboração com o cantor cubano Silvio Rodríguez. Meio romântica, meio crítica, a faixa é morna, mas mostra a capacidade do grupo de intercalar momentos agressivos e sérios com melodias gentis.

Eis que vem um dos momentos mais importantes do disco: a faixa-título, com a participação do guitarrista Tom Morello (Rage Against the Machine), a cantora palestina Kamilya Jubran e o fundador do WikiLeaks Julian Assange. Sim, ele mesmo. Participou da faixa com um breve discurso gravado na embaixada do Equador na Inglaterra, onde o jornalista está asilado há meses.

Como não pode faltar em qualquer álbum do Calle 13, a faixa “Cuando los Pies Besan el Piso” vem para fazer as vezes de música dançante. A própria letra conclama o ouvinte a “bater com o pé bem forte no chão até despertar seus tataravós”.

Vem então uma das faixas mais fortes do disco: “Adentro”, na qual Residente põe o dedo na cara dos chamados “gangsta rappers”, aqueles que fazem músicas de adoração ao ouro e às armas. Ao mesmo tempo, critica a si mesmo, tornando público seu arrependimento por ter xingado Luis Fortuño em 2009 (na época, ele era o governador de Porto Rico) e por ter comprado uma Maserati usada quando começou a fazer sucesso com o Calle 13. No vídeo da faixa, jovens de Porto Rico são mostrados jogando suas armas e correntes de ouro dentro do carro, que depois é destruído pelo próprio Residente com um taco de beisebol cedido pelo ídolo do esporte Willie Mays.

A nona faixa é mais um interlúdio, que leva o nome “Stupid Is as Stupid Does”. Um discurso inflamado do ator e dublador colombiano-estadunidense John Leguizamo é proferido sobre uma leve melodia no violão e nos metais. O discurso de certa forma harmoniza com a faixa seguinte, “Los Idiotas”. Mais uma vez, a dupla mostra como uma melodia infantilizada e uma letra aparentemente boba podem passar uma mensagem bastante séria e pertinente.

Entrando na reta final do disco, “Fuera de la Atmosfera del Craneo”, parece uma prima de “John el Esquizofrénico”, faixa do disco Los de Atrás Vienen Conmigo. A letra, bem imaginativa e psicodélica, parece ter saído da cabeça de uma criança.

Em “Perseguidos”, a banda desbrava o terreno do reggae, até então inexplorado por eles. Numa faixa que atrairá a atenção dos fãs de Bob Marley, o grupo traz um dos seus trabalhos mais originais e interessantes até então, com a ajuda do cantor francês Biga Ranx, que faz aqui uma participação.

A versatilidade do grupo vira até tema de música em “Gato Que Avanza, Perro Que Ladra”, na qual Residente exalta a diversidade musical da banda (“A Calle 13 é transexual, é a mistura de mais de um gênero musical”) e ironiza um dos principais recursos argumentativos conservadores: o de que ser de esquerda pressupõe fazer voto de pobreza e viver desprovido de tecnologias.

Fechando o álbum, duas faixas mornas, com letras menos diretas e mais poéticas: “Me Vieron Cruzar” e “Así de Grande Son las Ideas”.

Mesmo que não seja tão impactante, diverso e ácido que o antecessor Entren los Que Quieran, Multi_Viral alcança o mesmo patamar pela proposta e pela estratégia. Conforme Residente afirmou em entrevista ao The New York Times, a ideia é que as pessoas carreguem as músicas do disco na internet e espalhem-nas: como um vírus.

Fica uma ressalva, contudo: em 2013, Residente convidou seus fãs a enviarem raps sobre uma batida que ele disponibilizou no SoundCloud. Os arquivos enviados seriam usados em uma música nova da banda. A pergunta é: cadê? Os trabalhos dos fãs parecem ter sido em vão, uma vez que nenhuma das faixas apresenta trechos enviados por seguidores da dupla.

Nota = 8,5. Reafirmando sua relevância e aprofundando seus conhecimentos de música latina e mundial ao mesmo tempo em que não deixa a picância de suas letras diminuir, a dupla Calle 13 segue sendo talvez o grupo mais importante de Porto Rico desde Menudo, e estabelece-se como porta-voz da esquerda latino-americana – ainda que eles provavelmente rejeitem tal rótulo.

Abaixo, o vídeo da faixa-título:

Dez músicas para ouvir a caminho de uma manifestação

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.


Em comemoração ao dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock, e ainda embalado pelas recentes manifestações que chacoalharam o Brasil, o Sinfonia de Ideias (cujo blogueiro acompanhou alguns atos de perto) selecionou dez músicas (de rock/metal, é claro) que devem constar na playlist de todo manifestante que se prepara para encarar uma saraivada de balas de borracha, uma névoa de gás lacrimogêneo e um simpático jato de spray de pimenta na cara.

Lembrando que as músicas abaixo são sugestões apenas, isto não é uma lista top 10. Elas estão listadas em ordem alfabética, exceto a 6ª canção, antecipada propositalmente, conforme explicado abaixo.

1 – “Calma pueblo”, do Calle 13
Calle 13, dupla porto-riquenha de reggaeton/hip-hop/música urbana/música latina num post sobre rock/metal? Parece heresia, mas não é. Eles já flertaram com o rock várias vezes, e “Calma Pueblo” é talvez o melhor exemplo: não por um acaso, o guitarrista Omar Rodríguez-López (ex-The Mars Volta) faz uma participação especial aqui na guitarra. A música não fala exatamente de manifestações, mas a letra é tão ácida e o ritmo é tão agressivo (para os padrões do Calle 13) que, se a guitarra fosse mais distorcida e o idioma fosse o inglês, daria pra confundir com Rage Against the Machine. O clipe da música também não prima pela delicadeza: tanto que é censurado no YouTube, por isso, foi preciso recorrer ao vimeo. Uma outra faixa até mais apropriada para esta lista seria “Vamo’ a portarnos mal”. Porém, como ela não traz nada de rock, ficou de fora. Mas fica a recomendação para quem não for um tr00zão mui macho que só ouve material 666 from hell.

CALLE 13 CALMA PUEBLO from PACOAGUAYO on Vimeo.

2 – “Deer Dance”, do System of a Down
Parte da track-list de Toxicity, o segundo álbum deste quarteto armênio-estadunidense. Pode haver certa discórdia quanto ao real significado de “deer dance” (“dança dos cervos”). Talvez eles se refiram à dança tradicional dos Yaquis, povo nativo do norte do México e sul dos Estados Unidos, fazendo uma comparação dela com a movimentação de manifestantes e policiais durante os embates com tropas de choque. Enfim, a faixa retrata a brutalidade policial característica das opressões a manifestações, algo comum não só no Brasil como em quase todo o mundo.

3 – “Estado violência”, dos Titãs
Uma das várias faixas ácidas de “Cabeça Dinossauro”, o álbum mais importante da carreira deste quarteto paulistano que, na época do lançamento, era um octeto. A escolha mais óbvia, para alguns, seria “Polícia”, que critica diretamente a corporação. Mas esta faixa aqui tem o mérito de não criticar a polícia isoladamente, mas sim todos os excessos de que o Estado se utiliza para atender aos seus próprios interesses. Algo que o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes sentiram na pele ao serem presos, respectivamente, por porte e tráfico de heroína. Este episódio seria determinante para a direção musical que o grupo tomou a partir de então.

4 – “Get Up”, do Goldfinger
Letras críticas não são predominantes na discografia deste quarteto californiano de ska punk, mas quando eles resolvem atacar, fazem-no com bastante inteligência. Aqui, eles convocam as pessoas para as ruas. A pauta não é clara, a mensagem é meio genérica. Mas encaixaria perfeitamente nas manifestações do Brasil.

5 – “O meu país”, do Zé Ramalho
Você pode até achar que este sexagenário paraibano é só um trovador de MPB e forró, mas saiba que ele pode sim ser considerado um bom exemplo de rock nacional – “Made in PB”, “O rei do rock”, “Indo com o tempo” e os discos-tributo que já fez para os Beatles, Raul Seixas e Bob Dylan são provas mais do que suficientes. Esta faixa especificamente não é lá um rock ‘n’ roll. Na verdade, é tocada apenas por ele em um violão. Poderíamos chamar de rock acústico. Mas a letra é bastante significativa, enumerando diversos problemas crônicos do Brasil. Interessante para lembrar alguns dos motivos pelos quais não podemos ficar parados. O vídeo abaixo, não-oficial, é meio clichê e até apelativo em alguns momentos, mas era mais dinâmico e interessante do que uma imagem estática da capa de Nação Nordestina, álbum em que a canção foi lançada.

6 – “Que país é este”, do Legião Urbana
A banda que marcou uma geração e que figura na playlist de nove entre dez revoltados brasileiros não poderia deixar de aparecer aqui. Difícil é escolher só uma música. Por isso, fiquemos com a emblemática “Que país é este” – ouví-la logo após “O meu país” maximiza, digamos, a indignação. Por isso, o blog tomou a liberdade de mudar um pouquinho a ordem das músicas aqui.

7 – “Outcry”, do Dream Theater
Esta faixa caiu como uma luva no disco A Dramatic Turn of Events (resenhado neste blog). Poderia até ter sido lançada como segundo single. Conforme o guitarrista John Petrucci havia afirmado em entrevista ao The Ticket, o álbum trata das mudanças abruptas que ocorriam em 2011 (daí o título). E “Outcry” trata especificamente do que ocorreu na Líbia, quando a população se levantou contra Muammar Gaddafi. E se tem outra coisa que cai como uma luva, é a letra da música no contexto das revoltas brasileiras, ainda que aqui os levantes tenham causas, demandas e consequências distintas.

8 – “Revolution Calling”, do Queensrÿche
Foi difícil decidir entre esta e “Resistance”, as duas tem letras bem significativas. Como esta tem um clipe, ficaria melhor neste post. Além disso, é precedida por duas introduções: “I Remember Now”, sem música de facto, e “Anarchy-X”, um belo e curto instrumental, tornando-a musicalmente mais interessante (o clipe, contudo, não traz as aberturas). “Revolution Calling” tem ainda o mérito de atacar também a mídia, que teve papel determinante durante as manifestações, as quais tachou inicialmente de “um monte de vândalos maconheiros baderneiros sem causa”, para depois reconhecer a importância da mobilização popular – principalmente após um festival de reclamações nas redes sociais contra a cobertura altamente tendenciosa da imprensa brasileira.

9 – “Stand My Ground”, do Stratovarius
A faixa mais recente desta lista, lançada no início do ano com o álbum Nemesis (resenhado neste blog). O Stratovarius é especialista em fazer letras do tipo “eu tenho minha opinião-tenha respeito por ela-não vou te ouvir se eu não quiser-dane-se o seu deus” e coisas assim, uma tradição que persistiu mesmo após a saída de Timo Tolkki, principal letrista do quinteto finlandês. Conquanto isso já tenha quase virado um clichê na discografia deles, as faixas com esta temática sempre estiveram entre as melhores de cada álbum: “Find Your Own Voice”, “Forever Free”, “Blind”, etc. Com “Stand My Ground”, não foi diferente.

10 – “White Riot”, do The Clash
Não poderia faltar um punk aqui, não é mesmo? Quer dizer, o Goldfinger também é punk, mas já é algo mais puxado pro pop e ska. The Clash é uma banda mais “clássica”, aliás, uma das maiores lendas do gênero. Esta faixa, especificamente, causou polêmica na época, pois alguns entenderam que sua letra incentivava uma guerra racial. Na verdade, o autor Joe Strummer estava conclamando “os brancos” a encontrarem uma causa para protestar, algo que “os negros” já estavam fazendo. É discutível essa visão bipolarizada de que sociedade está dividida em duas raças, mas a mensagem é mais ou menos esta: “Vocês, da classe média, arranjem uma causa e levantem-se!”. É interessante também notar estes versos: “are you taking over or are you taking orders?” (“Você está tomando o controle ou está recebendo ordens?”). Durante as manifestações, muito se discutiu sobre os reais objetivos dos revoltosos. No início, as alas mais conservadoras vieram com suas teorias patéticas de que as manifestações eram compostas por pessoas compradas pelo PCO e pelo PSTU (partidos que não têm dinheiro nem sequer para fazer uma propaganda eleitoral decente). Depois que os protestos ganharam dimensão nacional e projeção internacional, foi a vez da esquerda, frustrada por ter perdido o controle da pauta, delirar e taxar os manifestantes que pediam o fim da corrupção de “massas manipuladas pelo PSDB e pela grande mídia”. Mas isto já seria tema para um outro post.

Sentiu falta de alguma música? Os comentários estão aí pra isso! =)