Andre Matos: a voz que orgulhava um país que não a merecia

andre matos ao vivo em um palco cantando ao microfone

Andre Matos em 2009 (Foto: Raúl Ranz, sob licença CC-BY-SA)


O segundo sábado de junho de 2019 reservou uma desagradável surpresa para a comunidade heavy metal: a morte do cantor e pianista Andre Coelho Matos, mais conhecido pelo primeiro e último nomes. As notícias sempre o resumirão como “ex-vocalista do Angra”, mas nós todos sabemos que ele foi muito mais do que isso.

Andre era uma referência no metal internacional, e isso ficou óbvio pela quantidade de músicos e bandas das mais diversas vertentes do heavy metal e dos mais diversos países que manifestaram pesar pela sua morte. Todos unânimes em reconhecer seu talento, seu profissionalismo e sua relevância.

Pioneirismo, Iron Maiden e múltiplas bandas


Ainda adolescente, Andre Matos fundou o Viper, um dos grupos mais importantes do metal nacional. Dois álbuns e alguns anos depois, conforme a banda se aventurava no thrash metal, ele foi se aventurar em música clássica e conquistou uma graduação no ramo. No início dos anos 1990, formou o Angra, que viria a ser a segunda banda mais relevante do heavy metal brasileiro, e pôde dar vazão simultânea aos dois gêneros musicais aparentemente antagônicos que ele tanto apreciava.

Poucas pessoas percebem, mas a mistura de heavy metal com música erudita que o Angra fazia já em sua estreia, Angels Cry (1993), ainda podia ser considerada revolucionária para a época, e certamente ninguém esperava que uma banda fora da Europa empreendesse isso. Mas o Angra o fez – e não recebe o devido crédito por seu pioneirismo, devo adicionar.

Já com o disco seguinte, o Angra lançou um grande clássico: Holy Land (1996), em que o heavy metal colidia não apenas com o erudito, mas também com a própria música brasileira. Novamente, temos aqui Andre Matos em cada nota musical. O único grande defeito do álbum foi ter sido lançado pouco depois de Roots, a revolucionária joia musical com a qual o Sepultura abalou as estruturas do thrash metal e eclipsou totalmente o trabalho do grupo paulista.

Do Brasil para o outro lado do Atlântico agora. Quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden em 1993, Andre foi um dos mais cotados para substituí-lo. Na verdade, ele só não entrou por ser latino-americano. O então quarteto britânico optou pelo conterrâneo Blaze Bayley, com quem ficariam por meia década. De qualquer forma, fica o exemplo do quanto Andre já era consagrado fora do Brasil em tão pouco tempo de carreira. Isso mais de 20 anos antes de Kiko Loureiro entrar para o Megadeth e deixar toda a comunidade headbanger nacional cheia de orgulho – gostando dele ou não.

As aventuras musicais no Angra renderam apenas mais um lançamento: Fireworks (1998). Conflitos com outros membros e principalmente com o empresário da banda levaram o cantor a largar o grupo e ainda levar junto o baixista Luis Mariutti e o baterista
Ricardo Confessori, com quem ele formou o Shaman – outra banda de grande relevância no metal nacional. Sua história no grupo rendeu dois álbuns, sendo o primeiro deles (Ritual, 2002) quase tão fora da caixa quanto Angels Cry foi.

Foi nessa época também que ele iniciou sua participação no Avantasia, metal opera encabeçada pelo amigo Tobias Sammet, do Edguy. Andre deixou sua marca em algumas faixas de The Metal Opera I e II (os dois primeiros álbuns do projeto) e depois apareceu em apenas mais uma música: “Blizzard on a Broken Mirror”, do The Wicked Symphony (2010). Por outro lado, ele fez diversas aparições ao vivo com o projeto. Um de seus últimos shows foi justamente na etapa brasileira da turnê do Moonglow (2019, resenhado neste blog), poucos dias antes de sua morte.

Com seu falecimento, apaga-se também o sonho de um dia vê-lo no Ayreon, outra grande metal opera, cujo líder (Arjen Anthony Lucassen) já havia declarado que tanto ele quanto Edu Falaschi (seu sucessor no Angra) estavam na “wish list” de vocalistas para o projeto – juntamente a centenas de outros nomes.

Outras parcerias notórias incluem “Prince with a 1000 Enemies”, em Rabbits’ Hill, Pt. 1 (2012, resenhado neste blog), do Trick or Treat, grata surpresa do power metal italiano na última década; e sua participação no coral de Consign to Oblivion (2005), do Epica.

No início de sua última década de vida, Andre formou com Timo Tolkki (ex-Stratovarius) o Symfonia, supergrupo de power metal que contava ainda com Mikko Härkin, Jari Kainulainen e Uli Kusch. O que era para ser um álbum estupendo acabou sendo um lançamento genérico que não agradou a crítica e empolgou apenas um punhado de fãs mais apaixonados. A banda encerrou suas atividades em cerca de um ano após mais um surto do instável Timo.

Como artista solo, Andre lançou três discos. Apesar da qualidade da banda de apoio e de faixas memoráveis como “How Long (Unleashed Away)” e “Endeavour”, sua carreira solo nunca realmente alcançou o mesmo nível de relevância e sucesso que sua história em outras bandas, mas não deixa de ser parada obrigatória para quem quer conhecer a obra dessa lenda.

Vegetariano, corintiano, discreto… ignorado


Andre era vegano convicto e falava orgulhosamente de sua opção de vida, que o levou a um calendário especial ilustrado com imagens de outras personalidades veganas ao lado de animais.


Uma qualidade ainda maior sua é a de corintiano. Quando o Timão foi em busca do bicampeonato mundial em 2012, Andre foi flagrado cantando uma versão em japonês do hino do clube paulistano. Certos privilégios, só quem faz parte do bando de loucos tem.

Andre era um sujeito discreto e, logicamente, seu velório foi reservado, longe das lentes das câmeras e do assédio dos fãs. Seus parentes demoraram a falar com a imprensa sobre sua morte e só o fizeram em consideração aos fãs. Pouco se sabia de sua família, exceto que ele tinha um filho na Suécia.

Apesar disso, fiquei surpreso negativamente que o Jornal Nacional, telejornal mais assistido do Brasil, não se dignou a sequer mencioná-lo na edição do dia de sua morte. Não que eu esperasse cobertura ao vivo do funeral, uma longa reportagem biográfica ou algum outro privilégio normalmente reservado apenas aos enlatados promovidos pela emissora.

Mas simplesmente ignorar a morte de um músico tão reconhecido lá fora pode não ser mero desdém pela cultura não-hegemônica. É talvez sintoma de algo mais grave, como o repertório cultural deficiente dos novos jornalistas. Quer dizer, muitos naquela redação talvez nem soubessem quem Andre Matos era, ou talvez não tivessem discernimento suficiente para determinar a importância de noticiar sua morte.

A maneira fria ou meramente nula com que a morte de Andre Matos foi recebida pela imprensa em geral, bem como o fato de sua música ser negligenciada em favor das bobajadas costumazes, são motivos mais que suficientes para dizermos que ele era um talento que o Brasil não merecia – como tantos outros, de tantas áreas diferentes. Mesmo cantando quase sempre em inglês, Andre contribuiu mais para a cultura brasileira (dentro e fora daqui) do que mil desses nomes efêmeros que poluem as rádios.

E só para justificar o “quase” usado no parágrafo anterior, encerremos este post com um registro dele cantando em português:

Dia Mundial do Rock: 15 encerramentos de tirar o fôlego

Neste ano, o Dia Mundial do Rock coincidiu com a final da Copa. Por este motivo, o Sinfonia de Ideias não publicou nada a respeito no último domingo: o negócio era celebrar o tetra da Alemanha, curtir uns 15 minutos de sadismo com a derrota da Argentina e palpitar sobre o futuro do futebol brasileiro. Poucos lembraram do rock. O post deveria ter sido publicado na segunda-feira, portanto, mas só deu para finalizar hoje, por motivos de força maior. Sem mais desculpas e antes tarde do que nunca, aqui vamos nós:

Inspirado por uma ideia que me surgiu há alguns meses, e aproveitando que encerramos o evento mais importante do ano, resolvi pinçar algumas músicas da minha biblioteca que contivessem encerramentos que me deixam até arrepiado de tão bons. Fiz uma lista com algumas dezenas, excluí várias e fechei uma compilação com 15, já que dez seria muito pouco. São faixas variadas de rock, heavy metal e derivados, algumas conhecidas, outras nem tanto. Boa audição!

PS: Isto NÃO É uma lista de “15 melhores”. As faixas abaixo são meras sugestões, listadas na ordem alfabética dos artistas. Evidentemente, muita coisa boa ficou de fora, e nada impede você de adicionar bons exemplos nos comentários. 😉

“Endeavour” – Andre Matos
Uma lenda do metal brasileiro e ainda por cima graduado em música. Andre Matos abre a lista com a última faixa da edição regular de seu álbum de estreia, Time to Be Free. Co-assinada pelo tecladista Fabio Ribeiro, “Endeavour” começa como um belo trabalho de power metal veloz e aromas de Stratovarius. Já a partir dos 3:30, mais ou menos, ela toma uma direção levemente diferente, ainda rápida, para então fechar num belo encerramento que mistura toques sinfônicos, um solo inspirado e gritos arrepiantes do ex-vocalista do Angra e do Shaman.

“Farewell” – Apocalyptica
O violoncelo é um instrumento de som bastante emocionante – ele praticamente fala. Leva o público do conforto às lágrimas. Aproveitando-se das qualidades desse nobre instrumento, quatro amigos violoncelistas decidiram fundar em 1993 o Apocalyptica, até hoje um dos grupos mais notórios da Finlândia. Destaca-se por não conter vocalistas (exceto convidados ocasionais), baixistas ou guitarristas, somente violoncelistas e, a partir de 2003, um baterista. No último minuto desta faixa advinda do álbum homônimo do grupo, uma música que é melancólica do começo ao fim entra numa reta final arrepiante, comandada por uma melodia tocante e relativamente simples.

“Farewell” – Avantasia
Pura coincidência, mas outra faixa intitulada “Farewell” foi selecionada para esta lista. Marcando a única participação de Sharon den Adel (Within Temptation) no primeiro dos dois álbuns The Metal Opera, “Farewell” traz ainda Tobias Sammet (Edguy), líder, baixista e principal vocalista do Avantasia, projeto que deu vida a esta música; e Michael Kiske (ex-Helloween, Unisonic), um dos nomes-chave do power metal e presença constante nos álbuns do Avantasia. É ele o responsável por tornar o encerramento desta balada um momento arrepiante a partir dos 5:28, com dois versos cantados repetidamente em cruzamento com o refrão de Tobias.

“I Want You (She’s So Heavy)” – The Beatles
Não é bem uma música emocionante, mas está aqui como reconhecimento a uma das maiores bandas que já existiram. Tudo bem que esta faixa não é típica dos Beatles – é longa e de vocabulário enxuto. Mas é emblemática, considerada por alguns até como uma forma embrionária do heavy metal. O acorde tocado em arpejos que se repete por três minutos ao final vai ganhando corpo até o fim e faz deste encerramento um dos melhores da carreira deles, ainda que a música termine de forma estranhamento abrupta.

“The Ghost of Tom Joad” – Bruce Springsteen (com Tom Morello)
Pra não dizer que não há faixas ao vivo aqui, trago a primeira parceria de Bruce Springsteen com Tom Morello (Rage Against the Machine), uma combinação de muita química musical (e ideológica, posto que os dois são porta-vozes da esquerda estadunidense) que culminou na gravação do álbum mais recente do The Boss, High Hopes (resenhado neste blog). Neste que é basicamente um álbum de autorregravações, Tom participa de metade das faixas, incluindo esta. Foi lançada pela primeira vez como faixa-título e de abertura do décimo primeiro disco do guitarrista/vocalista de Nova Jérsei. O solo de encerramento que Tom fez em estúdio é praticamente o mesmo que fazia ao vivo: pessoal, marcante e cheio de efeitos, como pode ser conferido abaixo.

“White Shadows” – Coldplay
Fazer músicas arrepiantes é a especialidade do Coldplay, e não importa o quanto os chatos tr00 4life tentem diminuir a banda, o quarteto britânico é um nome que será sempre obrigatoriamente abordado por quem estuda a cultura ocidental da primeira década deste século. “Politik” quase entrou no lugar desta, mas como seu encerramento é mais longo e marca praticamente um segundo momento da música, optei por “White Shadows”, que traz a participação de Brian Eno nos sintetizadores e um encerramento mais “repentino”, que, aos 4:20, dá fim digníssimo para uma das melhores faixas do terceiro álbum do grupo, X&Y.

“Justice for Saint Mary” – Diablo Swing Orchestra
O Diablo Swing Orchestra é uma das mais gratas surpresas do metal neste início de século. Talvez os primeiros a se atreverem a misturar heavy metal com jazz e swing, o grupo vem conquistando os fãs do chamado avant-guarde metal. Nesta faixa, a última de seu mais recente disco Pandora’s Piñata, um belo instrumental com cordas e metais fecha este trabalho guiado por melodias e letras tensas com chave de ouro – ainda que eu, particularmente, teria deixado de fora os efeitos sonoros que chegam depois.

“The Ministry of Lost Souls” – Dream Theater
Uma bela história em forma de canção pede um belo trabalho musical – o que, no caso destas lendas do metal progressivo, não é pedir muito. Escrita por John Petrucci, a faixa nos transporta para a história de uma mulher que é salva do afogamento por um herói anônimo que acaba morrendo no resgate, o que a deixa cheia de remorsos até conseguir reencontrar seu salvador. O solo de guitarra a partir dos 12:44 é, sinceramente, um dos trabalhos musicais mais belos que já ouvi na vida.

“Hotel California” – Eagles
E falando em solos de encerramento na guitarra, destaco aqui um dos mais emblemáticos de todos os tempos: “Hotel California”, presença constante nas listas de melhores solos da história do rock. E não é para menos: este brilhante duelo de Don Felder com Joe Walsh, acompanhados no violão de doze cordas de Glenn Frey e no baixo de Randy Meisner, é um verdadeiro acontecimento do rock setentista.

“Let It Grow” – Eric Clapton
E vamos para mais um solo de guitarra utilizado para fechar músicas (lembrando que a lista está na ordem alfabética dos artistas). Aqui, o mestre do blues Eric Clapton dá uma aula de arpejos, ainda que alguns digam que a melodia principal do solo tenha sido chupada da introdução de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin.

“Visions” – Haken
Talvez o carro chefe de uma nova leva de bandas de metal progressivo, o Haken vem arrancando elogios da crítica especializada e já conquistaram até os supracitados Dream Theater com suas letras melódicas e instrumentais impecáveis. A música mais longa da carreira do sexteto britânico é “Visions”, faixa de encerramento de seu segundo álbum (de mesmo nome). Após mais de vinte minutos do mais bem executado metal progressivo enfeitado com toques sinfônicos e eletrônicos, a banda dá lugar a um belo “epílogo musical” de cordas.

“The Saints” – Helloween
Fundadores do power metal e com três décadas de estrada, o Helloween não é bem uma banda acostumada a belas melodias: seu negócio é agressividade nos riffs, no ritmo e no vocal – apesar de já terem se acostumado a uma balada aqui e outra ali. Talvez por isso o breve encerramento de “The Saints” seja uma grata surpresa: ninguém esperaria que uma banda tão 666 resolvesse acabar uma música com um solo de cordas, sintetizado pelo tecladista contratado Matthias Ulmer.

“Beauty of the Beast” – Nightwish
Quase que outra música de nome parecidíssimo veio aqui no lugar desta: “Beauty and the Beast”, do disco de estreia Angels Fall First. Por que a opção por esta, então? Porque “Beauty of the Beast” é mais longa e mais bem produzida, o que valoriza o som do grupo que, nesta época, apresentava sua formação mais popular (Marco Hietala, presente aqui, ainda não tocava com a banda no primeiro disco). O poderoso encerramento combina todos os membros da banda: Jukka, Emppu e Marco aliados em um ritmo e um riff que lembra uma marcha militar; Tuomas e seu brilhante trabalho sinfônico ao fundo; e Tarja com belos “ohs” da vida.

“Mulher de Fases” – Raimundos
E pra ninguém dizer que a lista não tem representantes brasileiros que cantam em português, aí está um dos maiores nomes do nosso punk. “Poxa, mas tinha tanta música brasileira com encerramentos mais bacanas!” Sim, mas como deixei claro lá em cima, a lista não é uma Top 15. Enfim, aos fatos: na mesma linha de “The Saints”, temos aqui outra faixa pesada encerrada com cordas, e de maneira inesperada – cordas não são bem os instrumentos que você espera ouvir ao adquirir um álbum de punk. Mas elas estão aí, marcando presença na música inteira, e ganhando destaque ao final, dando um toque paradisíaco a um dos maiores hits do quarteto.

“The Eye of Ra” – Star One

O que aconteceria se Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob), Damian Wilson (Threshold), Floor Jansesn (ex-After Forever, ReVamp, Nightwish) e Dan Swanö (Nightingale) cantassem na mesma música? Ou no mesmo álbum? O gênio holandês Arjen Anthony Lucasen já respondeu a esta pergunta por diversas vezes ao longo dos dois álbuns de seu projeto Star One, que faz músicas de “space metal” com letras inspiradas em filmes de ficção científica. A letra da faixa abaixo, “The Eye of Ra”, dialoga com o clássico Stargate, de 1994. E o encerramento fica por conta dos quatro gigantes cantando os mesmos versos, primeiro acompanhados pelos instrumentos, e lentamente deixados quase que a cappella.