Resenha: Summerdelics – GLAY

Reprodução da capa do álbum (© Pony Canyon)

Desde 2014, quando lançou o bom Music Life (resenhado neste blog), o quarteto de pop rock japonês GLAY vinha emplacando músicas inéditas em trilhas de animes, eventos esportivos e comerciais. Eis que, em 2017, resolvem juntá-las com outras mais novas em um disco, Summerdelics, seu décimo quarto.

Nitidamente um trabalho de “volta às raízes”, o álbum vê a banda retornar ao som mais simples e despretensioso dos anos 2000. Isso não quer dizer que o lançamento é ruim. Não, não, longe disso. O GLAY nunca foi menos do que razoável. O problema de Summerdelics é que seus três predecessores (Justice, Guilty (resenhados neste blog) e o já mencionado Music Life) exibiam um direcionamento musical mais elaborado e que, no geral, estava funcionando muito bem.

Mas o que prevalece neste lançamento são aquelas faixas bem glayanas mesmo. Difíceis de descrever em palavras, só quem conhece sabe do que estou falando. Tem aquele tom de música de anime infantojuvenil, mas com uma roupagem ainda adulta. Isso fica ainda mais curioso quando percebemos que o guitarrista Takuro não ficou responsável pela maioria isolada das composições e letras, como normalmente se fazia. O outro guitarrista, Hisashi, ganhou considerável espaço, fora as contribuições esporádicas do baixista Jiro e o vocalista Teru.

Ainda sobrou espaço, graças a Dio, para faixas mais elaboradas, como a ótima “Seija no Inai Machi”. E mesmo entre as mais do mesmo, qualquer um se anima com “XYZ”, “Heroes” ou “Lifetime”.

Nota = 3/5. Summerdelics é a banda sinalizando o fim de sua frutífera aventura musical e o retorno ao som de sempre, que não é ruim, mas não traz nada de novo. Talvez o melhor caminho teria sido sentar no estúdio e escrever tudo do zero, em vez de aproveitar trabalhos compostos isolada e esporadicamente nos últimos anos.

Abaixo, a faixa “Supernova Express 2017”:

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Resenha: Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência – Cartel da Cevada

Reprodução da capa do álbum (© Cartel da Cevada)

Uma campanha de financiamento coletivo depois, e o Cartel da Cevada – mais um filho da usina de bandas de rock que o Rio Grande do Sul se revelou nas décadas recentes – deu à luz seu segundo disco de estúdio, Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência. Com a obra, conseguiram o que muitas bandas novas de rock nacional tentam, mas fracassam miseravelmente: fazer rock and roll em português sobre cerveja, churrasco e mulher sem ficar forçado.

Em forma de rock opera, o lançamento aborda a história de um gaúcho em sua jornada do interior do mais meridional dos estados brasileiros para a sua capital Porto Alegre. As aventuras rendem faixas sobre assuntos banais como churrasco (“O Assador”) e cerveja (“Enquanto a Ceva Não Gela”); poemas pornográficos com requintes de escatologia (“O Ginete do 4º Distrito”); impressões sobre a capital (“Porto Alegre Pelamor”) e até um bate-papo com um extraterrestre vem parar no meio da história (“Bacontato”).

Para dar voz aos personagens, além do próprio vocalista Igor Assunção, que lembra de longe o finado Chris Cornell, um grande time de convidados especiais foi chamado: Cristiano Wortmann (Hangar/ZeroDoze), Carlos Carneiro (Bidê ou Balde/Império da Lã), Jacques Maciel (Rosa Tattooada), Iuri Sanson (Hibria), entre outros.

No campo instrumental, o rendimento foi farto. “A Barbada” e “Minuano” abrem com riffs iommíticos. “Porto Alegre Pelamor” nos leva a uma deliciosa viagem instrumental tecladística com aromas de Deep Purple. “Vermelho na Prata” entrega um dos melhores solos do álbum numa base à la Megadeth. E será que o acordeão em “O Assador”, na abertura “Fronteira”, no encerramento “Timbuka e Querência” e nos interlúdios nos permitem atribuir-lhes o rótulo de folk rock? Tal instrumento, junto com as letras, deu o mais óbvio toque de regionalismo ao trabalho, que é no geral bem puxado para a cultura gaúcha.

E foi assim, com letras bem elaboradas e uma instrumentação de primeira, que o Cartel da Cevada construiu um disco de “música séria” com temas leves. É o Rio Grande do Sul mais uma vez dando uma aula de rock independente.

Nota = 5/5. Segundo seu site oficial, a banda queria “fazer um disco ao mesmo tempo inovador e audacioso no cenário musical gaúcho e brasileiro”. Conseguiram. O lançamento pode ser baixado por apenas R$ 15 no site, embora essa versão lamentavelmente omita a introdução e os três interlúdios, em que regionalismo aflora como nunca. Vamos apoiar o rock nacional de qualidade?

Abaixo, o vídeo da faixa “Enquanto a Ceva Não Gela”:

Resenha: The Illuminated Sky – Prospekt

Reprodução da capa do álbum (© Laser’s Edge)

Com duas importantes mudanças na formação (saem o vocalista Matt Wichester e o tecladista Richard Marshall e entram em seus lugares, respectivamente, Rox Capriotti e Michael Morris), o quinteto inglês de metal progressivo Prospekt retorna com seu segundo álbum após figurar em listas de melhores lançamentos prog do ano de 2013 com sua estreia The Colourless Sunrise.

The Illuminated Sky é notavelmente superior a seu predecessor, que já não era ruim. Nota-se uma produção mais madura, uma química mais desenvolvida, uma música mais intrincada, poderosa e direta. Os rapazes de certa forma reproduziram a grandiosidade, complexidade e melodia de outras bandas da nova geração do gênero como Haken e Circus Maximus.

Na lista de faixas, vemos uma predileção por trabalhos relativamente longos. Metade deles passa dos 6 minutos. Dentre os outras cinco, temos uma introdução e um interlúdio, dos quais normalmente são se espera delongas mesmo. E não pense que as músicas longas foram inchadas com passagens calmas: é tudo 80% pauleira.

Tal característica se repete em basicamente todo o disco, de forma que não faz sentido falar de cada uma das dez faixas. O que não significa que não tenham seus charmes individuais: a introdução neoclássica em “Cosmic Emissary”, o vocal em “Akaibara” que parece incorporar Michael Kiske, o inspirado solo do calejado Greg Howe em “Alien Makers of Discord” e até mesmo a tímida participação de Marc Hudson (do DragonForce) em “Where Masters Fall”.

Faz falta aquela vozinha enjoada de Matt, mas Rox é dono de ótima técnica que permite à banda alçar voos mais ousados. O mesmo se pode dizer de Michael, que elevou a ala das teclas da banda a um novo patamar por meio de arranjos e intervenções bem pensadas e dosadas.

Nota = 5/5. É obrigação de qualquer banda superar seu lançamento de estreia no segundo álbum, mas o Prospekt foi além e definiu para si mesmo uma referência bem mais elevada para os trabalhos futuros. Se eles darão conta do recado, o tempo dirá, mas por enquanto, já fizeram bonito.

Abaixo, a faixa “In the Shadows of the Earth”: