Resenha: No Democracy – GLAY

capa do álbum No Democracy, de Glay

Reprodução da capa do álbum (© Pony Canyon)

Para marcar seu 25º aniversário enquanto grupo mainstream (a banda de fato existe desde 1988) e também seu 15º lançamento de estúdio, o quarteto japonês de pop rock GLAY deixou em 2019 uma marca chamada No Democracy.

Se o bom Summerdelics (2017; clique aqui para conferir minha resenha a respeito) era um trabalho de “volta às raízes”, este produto aqui vê os rapazes mantendo um pé nessas raízes e outro na musicalidade mais sofisticada e densa dos três discos anteriores (Justice, Guilty (clique aqui para conferir minha resenha a respeito destes últimos) e Music Life).

A abertura sinfônica “REIWADEMOCRACY” deixa isso bem claro, ainda que sua sequência “Hansei no Iro Nashi” dê preferência para o rock cru deles. A primeira que empolga é a saudosista “Flowers Gone”, com toda aquela pegada indie de seus trabalhos iniciais. E não se deixe enganar pelo jeitão de balada de “Koori no Tsubasa”, pois o seu minuto final é um jazz delicioso – e só a performance de Jiro no baixo já compensa e muito a audição.

O “meião” do álbum deixa um pouco a desejar. Temo bons momentos como a empolgante “Ah, Mujou” e “Just Fine”, com uma guitarra que lembra Tak Matsumoto (B’z) em alguns momentos – ele produziu o primeiro disco solo do guitarrista rítmico e principal compositor e letrista do GLAY, Takuro (que assina a música e a letra desta faixa), então faz todo sentido.

Inclusive, vale lembrar que ele volta a reinar nas composições e letras desta obra, diferentemente da anterior, em que os outros membros haviam recebido mais espaço autoral.

Voltamos a ter um destaque em “Anata to Ikite Yuku”, com um riff bem original e trabalhado ao lado das cordas, e a balada “Colors”, que não surpreende quem conhece a discografia do quarteto, mas mesmo assim destoa da mesmice que imperou nesta segunda metade.

“Urei no Prisoner” resgata aquele “quê” de abertura/encerramento de anime que o grupo sempre teve e o encerramento “Gengou” traz como diferencial um belo adorno de gaita.

Pesando tudo, No Democracy foi um disco bom e que faz jus aos marcos que ele representa, ainda que permaneça aquele sentimento, aquela impressão de que a banda poderia ter entregue ainda mais.

Nota = 4/5.

Abaixo, o clipe de “Colors”:

Resenha: Na Estrada, Antes da Curva – Diego Mascate

Reprodução da capa do álbum (© Diego Mascate)

Para lançar seu segundo disco solo, o cantor e compositor goiano Diego de Moraes se travestiu de sua alcunha Diego Mascate e marcou 2019 com Na Estrada, Antes da Curva, a segunda parte de sua trilogia iniciada em 2014 com A. C..

Dividida em duas metades, uma rock (acompanhada pela banda de apoio batizada com o sugestivo nome… “Banda de Apoio”) e outra folk (Bringing It All Back Home, é você?) sustentada por Diego sozinho, a obra contrapõe suas duas facetas da música, que envolvem a pegada rock e crua e aquele “quê” mais folk e pé (descalço) no chão.

Abrimos com o meio samba, meio rock “Escroto Visionário”, com letras ácidas e sarcásticas sobre o panorama sociopolítico nacional. A acidez é reproduzida na alternativa “Fraldas Descartáveis” e na punk “Punk Rico”.

Uma dupla completa a primeira metade do trabalho. Uma das faixas é o indie “Iludido”, apoteoticamente aberto com um trecho do Hino da Independência do Brasil e encerrado com o riff de “Seventh Nation Army”, dos The White Stripes (em referência ao início da carreira de Diego, quando tocava violão acompanhado pela irmã na bateria).

A outra é o rock interiorano “Confusão”, cuja pegada country faz o elo perfeito com a segunda metade, toda folk e acústica.

E ela já abre com a novamente sarcástica e de humor negro “Já Pensei”, seguida da progressivamente nua e crua “Um Não Vive Sem o Outro”, a crítica da pós-verdade “Mentira” e o “Sambinha Redentor” (estilisticamente autoexplicativo).

Mas o charme desta segunda metade é o encerramento “Vida e Morte de Diego de Moraes”: uma biografia musicada com toques de Bob Dylan, Raul Seixas, Xangai, João Bosco e outros, onde tudo fica muito bem explicadinho, inclusive a origem da alcunha “Diego Mascate”.

Na Estrada, Antes da Curva confirma Diego como nome que vale a pena na cena underground brasileira – a rural e ao mesmo tempo a urbana. O que será que a conclusão da trilogia nos reservará?

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Fraldas Descartáveis”:

Resenha: MMXX – Sons of Apollo

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music/Sony)

Em 2020, estão de volta os Sons of Apollo, a tropa de elite musical formada pelo vocalista Jeff Scott Soto (Trans Siberian Orchestra, Talisman, ex-Journey, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Axel Rudi Pell), o guitarrista Ron “Bumblefoot” Thal (Art of Anarchy, ex-Guns N’ Roses), o baixista Billy Sheehan (The Winery Dogs, Mr. Big, ex-David Lee Roth, B’z), o tecladista Derek Sherinian (Black Country Communion, ex-Dream Theater, ex-Alice Cooper, ex-Platypus, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Kiss) e o baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater, Transatlantic, The Neal Morse Band, The Winery Dogs, Flying Colors, ex-Adrenaline Mob).

É daqueles supergrupos que, se postarem uma foto nas redes sociais, o peso do arquivo esgota a internet de metade dos seguidores. A estreia deles, Psychotic Symphony (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), não foi uma obra-prima, mas com certeza não depôs contra o currículo de todos os membros.

Em MMXX, o desafio era aquele típico de segundos álbuns: superar-se. E eles conseguiram. Esteticamente falando, fizeram algo igualmente bem-vindo: tiraram o Sons of Apollo da antiguidade mitológica sugerida pela capa do trabalho de 2017 e trouxeram-no direto para a terceira década deste século. É exatamente este o objetivo por trás da capa, que traz o emblema da banda todo modernizado.

Fazer melhor que antes não era lá uma missão impossível. Todo grupo com um mínimo de competência demonstra do primeiro para o segundo disco uma evolução no entrosamento, se a formação tiver se mantido. E alguém aqui vai colocar em questão a competência desses caras? Não? Ninguém? Ufa.

Eles mantiveram o que funcionou na estreia, que foi a difícil combinação de “espaço igual para todos os membros” e “músicas executadas com força total”. Em outras palavras, nenhum membro rouba o espaço do outro e ao mesmo tempo todos arrebentam e confirmam o prestígio que têm em cada uma de suas funções. É o melhor de cada um na forma de riffs, solos, viradas e berros.

A abertura e primeiro single “Goodbye Divinity” tem aromas, especialmente em sua introdução, de “New Millenium”, uma das poucas músicas da era Sherinian do Dream Theater. “Wither to Black” e “Asphyxiation” chegam logo depois, têm alguns dos melhores solos e são diretas até para os padrões do quinteto.

O clima, a dinâmica e os riffs de “King of Delusion” flertam perigosamente com os de “Black Utopia”, encerramento do álbum solo de mesmo nome que Derek Sherinian lançou em 2003. Mas isto não tira dela o direito de constar entre os destaques. Curiosamente, “Black Utopia” também teve a participação de Billy Sheehan. Outra característica marcante dela é ser iniciada por um concerto sombrio e lisztiano ao piano de Derek. Sua concisão a torna mais interessante até que “New World Today”, o épico encerramento do qual falarei mais adiante no texto.

“Fall to Ascend” parece ser a manifestação de alguém que sofre a tão temida ansiedade. Seu solo se aproxima do metal neoclássico e a coloca na mesma turma de “Wither to Black” e “Asphyxiation”. E a ótima “Resurrection Day” é uma típica peça curta progressiva, com direito a um dos melhores duelos.

“Desolate July” é uma homenagem a David Z., o baixista do Trans-Siberian Orchestra e do Adrenaline Mob que morreu em 2017 num acidente envolvendo o ônibus da turnê desta última. Ele era conhecido de todos da banda, em maior ou menor grau. Ao modo deles, os rapazes executam o único momento da obra toda que podemos considerar como “balada” – ah, se todas fossem assim… autênticas, emocionantes e sem abrir mão da identidade do artista em favor de comercialismos baratos. E faço questão de destacar o trabalho magistral que Derek faz aqui nos teclados, evocando “New Millenium” em alguns momentos mais uma vez.

O épico encerramento “New World Today”… bem, é evidentemente acima da média, não só deles, mas do metal em geral. Só que a própria “King of Delusion” se mostrou superior a ela. Os quase 16 minutos parecem desnecessários, tornando-a uma daquelas famosas faixas “esticadas, não longas”. Ela é intensa e matadora, mas… algum pedaço de MMXX não é?

Na minha análise de Psychotic Symphony, eu sugeri que talvez “num próximo lançamento […] o quinteto ouse mais e fuja dos clichês dos gêneros”. Não diria que eles fugiram dos clichês aqui, mas oferecem uma energia tão abrasadora e uma música tão cativante que ter ou não clichês vira um mero detalhe.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Goodbye Divinity”: