Resenha: Inure – Until Rain

Reprodução da capa do álbum (© Sensory Records)

Depois de uma profunda troca de membros que fez sobrar apenas o guitarrista Theodore Amaksopoulos e o tecladista Lefteris Germenlis, a banda grega de metal progressivo Until Rain marca 2017 com seu terceiro álbum cheio, Inure, e quatro novos integrantes, incluindo uma vocalista de apoio.

Embora a guitarra e o teclado sejam geralmente os instrumentos fundamentais do gênero, a mudança na formação não passou despercebida de forma alguma. Houve uma evidente mudança no som dos europeus, e não necessariamente para melhor.

Inure abre com a boa “Progressus in Idem”, que acena com uma mistura de Headspace, Myrath e Amassefer (algo que se ouvirá novamente mais tarde no disco, mais precisamente em “Butterfly Invasion”). Sua sucessora “New World Fiction” já vai pra um lado meio pop prog, parecido com o que o Haken fez em “Atlas Stone”, do The Mountain (resenhado neste blog). Em outras palavras, tem toques comerciais no sentido positivo do termo. “This Fear”, a quarta faixa, faz uma síntese entre as duas primeiras.

“Because Something Might Happen”, que recebeu um clipe perturbador, traz em seus primeiros seis minutos um prog impecável, mas o restante da faixa é extremamente arrastado e apenas repete um riff enjoado. Sim, também existe encheção de linguiça na música.

“Tearful Farewell” pode soar como uma balada acústica genérica ao ouvido destreinado, mas revela-se um trabalho bem tocante – “Broken Wing” segue na mesma linha. A intrincada “This Solitude” retoma os toques mais prog metal do agora sexteto e abre uma sequência melhor de faixas. A ela, fazem companhia a já mencionada “Butterfly Invasion”, a bônus morna “Debate” e a faixa título, que nos brinda com 13 minutos de ótimo metal progressivo, passagens guturais e um breve interlúdio sereno à la “The Count of Tuscany”, do Dream Theater.

O saldo das nove faixas (dez, se contabilizada a bônus) é positivo, mas quem acompanha a banda sabe que ela já fez melhor. A música do Until Rain ainda capta sua atenção e se destaca no mar de novos nomes progressivos, mas não temos aqueles riffs majestosos, sequências de solos e frases intrincadas que marcavam o grupo antes. Talvez seja preciso tempo para esta nova formação fluir como óleo. Espero que dentro de alguns anos eu possa me referir ao Inure como um álbum de transição, e não de inauguração de uma nova fase.

Nota = 3/5. Ao mesmo tempo em que não nego a qualidade geral de Inure, eu não o usaria como melhor exemplo de música do Until Rain. Especialmente depois do estupendo Anthem of Creation, de 2013. É um álbum bom, mas ainda pequeno para o talento dos músicos envolvidos.

Abaixo, o vídeo de “Because Something Might Happen”:

Resenha: Reaching into Infinity – DragonForce

Reprodução da capa do álbum (© earMusic)

A entrada do vocalista Marc Hudson no DragonForce parece ser a mudança mais relevante pela qual a banda passou nos últimos anos, mas uma outra pequena novidade na formação acabou causando um impacto bem maior na música do sexteto. Falo da ascensão do baixista francês Frédéric Leclercq como compositor. Se em seus dois primeiros discos no grupo (o ótimo Ultra Beatdown e o bom The Power Within (resenhado neste blog)) ele ainda tinha uma atuação tímida, apenas ajudando a escrever um punhado de faixas, ele muda o jogo a partir do excelente Maximum Overload (também resenhado neste blog) e passa a ser o principal compositor com o guitarrista Sam Totman. Usando suas influências death/thrash como tempero, ele leva os expoentes do chamado extreme power metal a um novo patamar.

Com Reaching into Infinity, sétimo lançamento de estúdio dos ingleses, temos a continuação natural desse processo, que matura o som deles, sem fazê-los perder a identidade. E isso fica claro logo na abertura. “Ashes of the Dawn”, precedida por uma introdução (recurso que eles não utilizavam desde o álbum de estreia em 2003), chega com um riff e um refrão pegajosos e uma cadência firme. Ótima introdução, que recebeu um vídeo.

E logo na terceira faixa, “Judgment Day”, chegamos a um dos pontos altos do disco. Ela abre com algo que poderia ter saído de um Summer Eletrohits, emenda num riff de death metal, desemboca num trabalho típico dragonforceano e se encerra de forma épica, lenta e emocionante. E sabe o que a torna ainda melhor? Solos do tecladista Vadim Pruzhanov. Aqueles, que praticamente não ouvíamos desde o Ultra Beatdown. Não por um acaso, ele coassina a composição da obra – sua única contribuição enquanto compositor neste álbum. Ah, se o ucraniano soubesse o quanto seus solos fizeram falta…

E falando no rapaz das teclas, cabe aqui um parêntesis: ele não é visto nem no clipe de “Ashes of the Dawn”, nem nos shows recentes do grupo. Em vídeo, explicou que não participará da turnê para dedicar mais tempo à sua filha.

Não falarei de cada uma das demais faixas separadamente, pois acabaria chovendo no molhado. Separei apenas alguns destaques que merecem comentários à parte. A começar por “Astral Empire”, que traz um solo de Frédéric, outra evidência do espaço que vem conquistando. Chamam a atenção também a forte “Silence”, a balada da vez; e a alucinadíssima “WAR!”, que faz jus às maiúsculas e ao ponto de exclamação de seu título. E tome mais um solo de Vadim!

A épica “The Edge of the World”, com mais de 11 minutos, é a mais longa já feita pelo sexteto, e a primeira a ultrapassar a marca dos dez minutos. Dinâmica, melhora gradativamente até um belo momento com guturais e um duelo de teclado e guitarra. Se ela é mais empolgante que “Soldiers of the Wasteland” (antiga detentora do recorde, lançada em 2004 no Sonic Firestorm), depende da afinidade de cada um, mas com certeza é mais sofisticada e rica.

Como faixas bônus, temos a excelente inédita “Hatred and Revenge”; um respeitável cover de “Evil Dead”, do Death, para os rapazes liberarem totalmente suas influências death; e a simpática “Gloria”, cover do ZIGGY, conjunto japonês pouco conhecido e que provavelmente agradará aos amantes de X Japan e afins.

Como dito acima, o que o DragonForce apresenta em Reaching into Infinity é uma clara evolução do lançamento anterior. Temos uma abordagem mais “séria” e madura na hora de construir a música. Vemos um Frédéric tão à vontade que até solos de guitarra ele mandou (em “The Edge of the World” e “Our Final Stand”). E, é claro, a execução alucinada e o clima épico que sempre marcou o som dos caras. Sobre o novo baterista Gee Anzalone? Recebeu logo de cara um bom desafio, pois teve que lidar com ritmos não ortodoxos para a banda. Mas se mostrou uma escolha acertada, afinal.

Por fim, vale exaltar a arte do CD. Não apenas por sua beleza em si, mas porque ela foi feita… no Brasil! O artista paulista Caio Caldas, por meio de sua marca CadiesArt, executou o projeto gráfico concebido pelo DragonForce que, finalmente, faz jus ao próprio nome e traz um dragão na capa, algo muito comentado entre os fãs. A criatura simboliza o espírito da banda, segundo declaração do guitarrista Herman Li ao Metal.de.

Nota = 5/5. Se nos dois discos anteriores eu contestava a ausência de faixas longas e solos de teclado, agora não tenho nada do que reclamar. E tampouco tem o fã. O DragonForce é um grupo que, verdadeiramente, melhora a cada álbum. Quando ouço um riff como o de “Ashes of the Dawn”, visualizo a dupla Sam Totman e Herman Li, seguida pelos demais integrantes, caminhando firme e forte sobre uma manada de fundamentalistas que pararam em “Through the Fire and Flames”.

Abaixo, o vídeo de “Ashes of the Dawn”:

Resenha: One More Light – Linkin Park

Reprodução da capa do álbum (© Warner Bros.)

Hoje vamos falar de um disco que era muito aguardado por todos. Mas não por mera curiosidade: após a divulgação de algumas faixas decepcionantes, o direcionamento do Linkin Park começou a ser questionado. Infelizmente, nossos piores temores se confirmaram: One More Light, sétimo lançamento de estúdio do sexteto californiano, é puro pop – e dos ruins. Absolutamente nada de heavy metal e praticamente nada de rock.

Diferente do que muitos dizem, o Linkin Park nunca tinha deixado de ser bom. Hybrid Theory e Meteora são, realmente, os clássicos da banda, mas isso não desmerece os lançamentos posteriores. A incorporação do rap, do pop e do eletrônico no rock e no heavy metal não é essa blasfêmia toda que alguns chatos pintam – eu admito tranquilamente que me apaixonei pelo electronicore em 2013 e não o larguei desde então.

Outra coisa que preciso salientar: mudanças, mesmo radicais, podem dar certo, e sempre cito Dir en grey e Anathema com dois exemplos perfeitos disso. Nem quando essa mudança vai na direção do pop o resultado é necessariamente ruim. E agora cito Coldplay como exemplo. Aliás, perto deste disco, o Coldplay atual soa como hard rock.

Mas então, por que é um álbum tão ruim? Além do fato de simplesmente não soar como Linkin Park, o que temos é um trabalho de pop fácil, genérico e preguiçoso. Quase todas as canções constroem um clima de dar sono. Dez segundos de qualquer Summer Eletrohits da vida têm mais energia que os 35 minutos de One More Light.

Chega a ser risível os demais membros ainda constarem como integrantes da banda. O guitarrista Brad Delson pode falar o que quiser, mas, mesmo tendo ajudado a escrever várias das faixas, sua participação instrumental foi tão impactante quanto uma folha caindo no mar. Rob Bourdon e Dave Farrell, por suas vezes, se veem numa situação igualmente constrangedora: ou admitem que foram substituídos por uma bateria e um baixo programados por computador, ou admitem que esta é a participação mais pífia que já tiveram no grupo.

O malabarismo argumentativo dos fãniquitos para defender o indefensável merece um parágrafo à parte. A desonestidade intelectual é de causar inveja aos defensores do Lula e do golpe de 2016. Dizem que a banda foi ousada ao mudar, como se qualquer mudança por si só compensasse. Dizem que o disco não é ruim só porque é pop, como se sequer estivéssemos falando de um exemplo de bom pop.

E profiro esta última frase com extrema segurança, não só por não ser um tr00 666 from hell chato que só ouve o que tiver guitarras distorcidas, mas também porque, na mesma época em que resenho este lançamento, exploro a discografia da jovem cantora norueguesa AURORA e reforço minha impressão de que o pop de qualidade existe e vai muito bem, obrigado.

Por outro lado, não vou engrossar o coro de quem acredita que o sexteto simplesmente se vendeu. Será mesmo que a renda do grupo não era satisfatória a ponto de justificar essa guinada? Tampouco farei comparações estapafúrdias com Backstreet Boys, *NSYNC, Five ou Westlife – por respeito às boybands.

Se o Linkin Park está feliz trilhando este caminho, que sigam em frente. Mas lidem com as críticas, que já estão se acumulando, como podemos ver no Metacritic. O vocalista Chester Bennington já reclamou em mais de uma entrevista de fãs saudosos de um Hybrid Theory. Não, Chester, eu não espero um novo Hybrid Theory. Mas também não aceitarei passivamente música preguiçosa. Não fiz isso nem com minha banda favorita (Titãs, na época do intragável Sacos Plásticos), por que faria com o LP?

Nota = 0. Como fã, eu até procurei algo de bom aqui, mas não achei. A faixa título despertou meu interesse por sua bela letra (e a versão ao vivo em homenagem a Chris Cornell é de fazer suar pelos olhos), mas afunda no lamaçal que foi esse trabalho que faz o Sinfonia de Ideias, pela primeira vez em seus 6,5 anos ininterruptos de existência, atribuir uma nota zero.

Abaixo, o vídeo de “Good Goodbye”:

* Um rascunho desta resenha foi acidentalmente publicado em 24 de abril, motivo pelo qual alguns assinantes do blog receberam uma versão incompleta do texto na data supracitada. O Sinfonia de Ideias pede desculpas pelo inconveniente.