Dez músicas para ouvir a caminho de uma manifestação

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.


Em comemoração ao dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock, e ainda embalado pelas recentes manifestações que chacoalharam o Brasil, o Sinfonia de Ideias (cujo blogueiro acompanhou alguns atos de perto) selecionou dez músicas (de rock/metal, é claro) que devem constar na playlist de todo manifestante que se prepara para encarar uma saraivada de balas de borracha, uma névoa de gás lacrimogêneo e um simpático jato de spray de pimenta na cara.

Lembrando que as músicas abaixo são sugestões apenas, isto não é uma lista top 10. Elas estão listadas em ordem alfabética, exceto a 6ª canção, antecipada propositalmente, conforme explicado abaixo.

1 – “Calma pueblo”, do Calle 13
Calle 13, dupla porto-riquenha de reggaeton/hip-hop/música urbana/música latina num post sobre rock/metal? Parece heresia, mas não é. Eles já flertaram com o rock várias vezes, e “Calma Pueblo” é talvez o melhor exemplo: não por um acaso, o guitarrista Omar Rodríguez-López (ex-The Mars Volta) faz uma participação especial aqui na guitarra. A música não fala exatamente de manifestações, mas a letra é tão ácida e o ritmo é tão agressivo (para os padrões do Calle 13) que, se a guitarra fosse mais distorcida e o idioma fosse o inglês, daria pra confundir com Rage Against the Machine. O clipe da música também não prima pela delicadeza: tanto que é censurado no YouTube, por isso, foi preciso recorrer ao vimeo. Uma outra faixa até mais apropriada para esta lista seria “Vamo’ a portarnos mal”. Porém, como ela não traz nada de rock, ficou de fora. Mas fica a recomendação para quem não for um tr00zão mui macho que só ouve material 666 from hell.

CALLE 13 CALMA PUEBLO from PACOAGUAYO on Vimeo.

2 – “Deer Dance”, do System of a Down
Parte da track-list de Toxicity, o segundo álbum deste quarteto armênio-estadunidense. Pode haver certa discórdia quanto ao real significado de “deer dance” (“dança dos cervos”). Talvez eles se refiram à dança tradicional dos Yaquis, povo nativo do norte do México e sul dos Estados Unidos, fazendo uma comparação dela com a movimentação de manifestantes e policiais durante os embates com tropas de choque. Enfim, a faixa retrata a brutalidade policial característica das opressões a manifestações, algo comum não só no Brasil como em quase todo o mundo.

3 – “Estado violência”, dos Titãs
Uma das várias faixas ácidas de “Cabeça Dinossauro”, o álbum mais importante da carreira deste quarteto paulistano que, na época do lançamento, era um octeto. A escolha mais óbvia, para alguns, seria “Polícia”, que critica diretamente a corporação. Mas esta faixa aqui tem o mérito de não criticar a polícia isoladamente, mas sim todos os excessos de que o Estado se utiliza para atender aos seus próprios interesses. Algo que o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes sentiram na pele ao serem presos, respectivamente, por porte e tráfico de heroína. Este episódio seria determinante para a direção musical que o grupo tomou a partir de então.

4 – “Get Up”, do Goldfinger
Letras críticas não são predominantes na discografia deste quarteto californiano de ska punk, mas quando eles resolvem atacar, fazem-no com bastante inteligência. Aqui, eles convocam as pessoas para as ruas. A pauta não é clara, a mensagem é meio genérica. Mas encaixaria perfeitamente nas manifestações do Brasil.

5 – “O meu país”, do Zé Ramalho
Você pode até achar que este sexagenário paraibano é só um trovador de MPB e forró, mas saiba que ele pode sim ser considerado um bom exemplo de rock nacional – “Made in PB”, “O rei do rock”, “Indo com o tempo” e os discos-tributo que já fez para os Beatles, Raul Seixas e Bob Dylan são provas mais do que suficientes. Esta faixa especificamente não é lá um rock ‘n’ roll. Na verdade, é tocada apenas por ele em um violão. Poderíamos chamar de rock acústico. Mas a letra é bastante significativa, enumerando diversos problemas crônicos do Brasil. Interessante para lembrar alguns dos motivos pelos quais não podemos ficar parados. O vídeo abaixo, não-oficial, é meio clichê e até apelativo em alguns momentos, mas era mais dinâmico e interessante do que uma imagem estática da capa de Nação Nordestina, álbum em que a canção foi lançada.

6 – “Que país é este”, do Legião Urbana
A banda que marcou uma geração e que figura na playlist de nove entre dez revoltados brasileiros não poderia deixar de aparecer aqui. Difícil é escolher só uma música. Por isso, fiquemos com a emblemática “Que país é este” – ouví-la logo após “O meu país” maximiza, digamos, a indignação. Por isso, o blog tomou a liberdade de mudar um pouquinho a ordem das músicas aqui.

7 – “Outcry”, do Dream Theater
Esta faixa caiu como uma luva no disco A Dramatic Turn of Events (resenhado neste blog). Poderia até ter sido lançada como segundo single. Conforme o guitarrista John Petrucci havia afirmado em entrevista ao The Ticket, o álbum trata das mudanças abruptas que ocorriam em 2011 (daí o título). E “Outcry” trata especificamente do que ocorreu na Líbia, quando a população se levantou contra Muammar Gaddafi. E se tem outra coisa que cai como uma luva, é a letra da música no contexto das revoltas brasileiras, ainda que aqui os levantes tenham causas, demandas e consequências distintas.

8 – “Revolution Calling”, do Queensrÿche
Foi difícil decidir entre esta e “Resistance”, as duas tem letras bem significativas. Como esta tem um clipe, ficaria melhor neste post. Além disso, é precedida por duas introduções: “I Remember Now”, sem música de facto, e “Anarchy-X”, um belo e curto instrumental, tornando-a musicalmente mais interessante (o clipe, contudo, não traz as aberturas). “Revolution Calling” tem ainda o mérito de atacar também a mídia, que teve papel determinante durante as manifestações, as quais tachou inicialmente de “um monte de vândalos maconheiros baderneiros sem causa”, para depois reconhecer a importância da mobilização popular – principalmente após um festival de reclamações nas redes sociais contra a cobertura altamente tendenciosa da imprensa brasileira.

9 – “Stand My Ground”, do Stratovarius
A faixa mais recente desta lista, lançada no início do ano com o álbum Nemesis (resenhado neste blog). O Stratovarius é especialista em fazer letras do tipo “eu tenho minha opinião-tenha respeito por ela-não vou te ouvir se eu não quiser-dane-se o seu deus” e coisas assim, uma tradição que persistiu mesmo após a saída de Timo Tolkki, principal letrista do quinteto finlandês. Conquanto isso já tenha quase virado um clichê na discografia deles, as faixas com esta temática sempre estiveram entre as melhores de cada álbum: “Find Your Own Voice”, “Forever Free”, “Blind”, etc. Com “Stand My Ground”, não foi diferente.

10 – “White Riot”, do The Clash
Não poderia faltar um punk aqui, não é mesmo? Quer dizer, o Goldfinger também é punk, mas já é algo mais puxado pro pop e ska. The Clash é uma banda mais “clássica”, aliás, uma das maiores lendas do gênero. Esta faixa, especificamente, causou polêmica na época, pois alguns entenderam que sua letra incentivava uma guerra racial. Na verdade, o autor Joe Strummer estava conclamando “os brancos” a encontrarem uma causa para protestar, algo que “os negros” já estavam fazendo. É discutível essa visão bipolarizada de que sociedade está dividida em duas raças, mas a mensagem é mais ou menos esta: “Vocês, da classe média, arranjem uma causa e levantem-se!”. É interessante também notar estes versos: “are you taking over or are you taking orders?” (“Você está tomando o controle ou está recebendo ordens?”). Durante as manifestações, muito se discutiu sobre os reais objetivos dos revoltosos. No início, as alas mais conservadoras vieram com suas teorias patéticas de que as manifestações eram compostas por pessoas compradas pelo PCO e pelo PSTU (partidos que não têm dinheiro nem sequer para fazer uma propaganda eleitoral decente). Depois que os protestos ganharam dimensão nacional e projeção internacional, foi a vez da esquerda, frustrada por ter perdido o controle da pauta, delirar e taxar os manifestantes que pediam o fim da corrupção de “massas manipuladas pelo PSDB e pela grande mídia”. Mas isto já seria tema para um outro post.

Sentiu falta de alguma música? Os comentários estão aí pra isso! =)

Nem todos os candidatos de Carapicuíba estão à altura da cidade

Como muitos dos meus leitores devem saber, eu moro em Carapicuíba. É uma cidade humilde e pequena, espremida entre Osasco, Barueri, Jandira e Cotia, esta última sendo praticamente uma segunda casa para mim, fora São Paulo, é claro. Apesar do tamanho diminuto, a população, por sua vez, é numerosa: já somos quase 400 mil, o que nos coloca entre as 60 mais populosas cidades do Brasil (considerando que são 5564 municípios no total, é uma posição respeitável).

Andei dando uma lida nos planos de governo dos cinco candidatos à prefeitura da cidade, que são disponibilizadas gratuitamente no site do TSE. Para acessá-los, basta clicar aqui e procurar por “Carapicuíba” no campo de pesquisa do canto superior direito. Depois, é só clicar no “+” ao lado do número de candidatos a prefeito, visualizá-los individualmente e clicar em “Proposta” no perfil de cada um. O método para ver propostas de candidatos de outras cidades é o mesmo.

Enfim, os planos: Só duas das cinco propostas apresentadas (afinal, são cinco candidatos) podem ser levadas a sério, ao meu ver: A do atual prefeito Sergio Ribeiro (PT) e a do ex-deputado estadual Marcos Neves (PSB). O plano do petista, evidentemente, serve não só como espaço de exposição de propostas mas também como propaganda, exaltando as suas atuações na gestão que acaba no final deste ano. Sergio promete ampliar os projetos que implantou na cidade, basicamente.

Já o plano do psbista traz várias sugestões interessantes, como a criação de mais linhas da EMTU (embora isso não dependa apenas dele) e a instalação de internet wi-fi em praças públicas. Além, é claro, dos problemas de sempre: educação, saúde, trabalho, etc. Dentre os planos apresentados, é o mais coerente com a realidade da cidade, lembrando que, evidentemente, não será cumprido em sua totalidade, como é de praxe na política brasileira.

A proposta do candidato do PT do B, Dr. João Pereira, chega a ser risível: não rendeu mais do que uma página de texto, e contemplou apenas a área da saúde (ATUALIZAÇÃO DE 7/10/12:: mais tarde, em uma entrevista, ele se explicou dizendo que apenas “priorizou” a área e rapidamente citou outros setores que contemplará em sua administração). Mas ele ainda se saiu melhor que o socialista Osmar Negreiros, do PSOL, que nem sequer apresentou algum plano (além de não ter declarado nenhum bem, o que soa, no mínimo, estranho. Ora, até o populista presidente do Uruguai, José Mujica, exibe com orgulho o seu único bem: um Fusca 1987). O DEMocrata Irmão Aragão (que nome, não?) até apresentou um plano, mas é tão enxuto (ainda que mais elaborado que o quase-esboço do Dr. João) e cheio de lugares-comuns que mal vale um comentário. Ah, vale sim: ele também não declarou nenhum bem. Suspeito, não?

Debate

Os cinco candidatos, com o mediador Fábio Pannunzio servindo de divisa entre os preparados e os “tomara que não seja eleito”. Da esq para a dir.: Sergio Ribeiro, Marcos Neves, Fábio Pannunzio, Osmar Negreiros, Dr. João Pereira e Irmão Aragão. (Foto: André Rizatto/Band)


No primeiro sábado de setembro deste ano, a Rede Bandeirantes promoveu um debate entre os cinco candidatos (que pode ser conferido na íntegra aqui), parte de um programa de debates com candidatos de algumas cidades da Grande São Paulo (e cuja matéria de minha autoria para o Granja News você pode conferir aqui). Neste debate, foi possível confirmar o que eu já suspeitava quando conferi as propostas: Sergio Ribeiro e Marcos Neves são, de longe, os candidatos mais bem preparados (ou, pelo menos, são os que conseguiram causar tal impressão).

Osmar Negreiros, desculpe-me, mas o senhor mal sabe falar. Afora os erros de português, seu discurso carece de coerência e clareza. Algumas das respostas do socialista foram tão confusas que, ao escrever a matéria, tive dificuldades para resumir o que ele quis dizer. Nos anos 60, Chacrinha já dizia o que acontece com quem não se comunica.

Irmão Aragão foi o primeiro e único a trazer para o debate a questão da ficha suja de Sergio Ribeiro, muito bem, clap clap clap. O problema é a maneira como o candidato fez isso: durante os blocos de perguntas, quando ele era perguntado ou perguntava a alguém, mudava de assunto de repente para fazer acusações contra o prefeito. Beirava a comicidade. Ainda mais considerando o fato de que ele supostamente não tem bens.

Quanto à ficha de Sergio, nela constam vários processos por Crime de Responsabilidade (todos, aparentemente, referentes a contas declaradas que não bateram com as contas de facto; pode ter sido tanto por erro quanto por má fé, e não cabe a mim julgar, e sim à justiça, que, aliás, arquivou todos os processos por falta de provas). Outros processos contra o prefeito (também arquivados) incluem crime de furto e improbidade administrativa.

Dr. João Pereira não demonstrou lá muito firmeza, e também não foi lá muito claro, mas eu diria que, num pódio, ele ficaria no segundo lugar, entre Osmar e Aragão, na terceira colocação, e Sergio e Marcos, no topo.

Gostaria de finalizar lembrando que muitos dos candidatos mal sabem que a Granja Viana existe. Marcos Neves esteve em um encontro com moradores de um condomínio de Carapicuíba, e diz-se que o atual prefeito também será convidado futuramente; pode ser uma maneira de lembrar aos políticos de que aqui também há pagantes de impostos – gordos impostos, eu devo adicionar, por se tratar de uma área nobre.

Ao som de Shania Twain. Gostaria de agradecer ao camarada Felipe Fontana, que me ajudou a analisar e esclarecer os processos de Sergio Ribeiro, para que eu pudesse relatar da maneira mais correta possível a atual situação do candidato.

ENEM o Mackenzie escapou.

Estudantes universitários se reúnem para uma manifestação. A polícia intervém. Mais um protesto na USP? Não, o episódio ocorreu um pouco mais para a direita no mapa (e no obsoleto espectro político, para alguns), na região da Consolação, para ser exato. Um remake da Batalha da Maria Antônia? Não, só uma universidade estava diretamente envolvida.

Ninguém imaginaria que estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie se aglomerariam em plena Consolação para protestar. Mas aconteceu. O que os motivou? A decisão do reitor de adotar o ENEM como forma de ingresso na faculdade. Bastou isso para apitos, faixas e narizes de palhaço desfilarem nos arredores da instituição.

Uma das poucas semelhanças deste episódio com os protestos da USP no final do ano passado foram as reações patéticas de quem estava fora da tempestade. Desde o episódio citado no início do texto, ocorrido em 1968, o estudante mackenzista virou uma espécie de persona non grata para outros universitários que se consideram Shamashs da política. Felizmente para o mackenzista, a mídia esteve ao seu lado, divulgando com certo alarde fotos como a que retrata um estudante levando um jato de spray de pimenta no rosto, enquanto que a cobertura dos protestos da USP foi, no mínimo, caricata. Mesmo assim, nem o Mackenzie escapou de julgamentos precipitados e vazios.

Se, na USP, os estudantes foram reduzidos a “vândalos maconheiros com roupas de marca querendo atenção e o direito de fumar sossegados sem a interferência da malvada polícia”, no Mackenzie, a ladainha ficou em torno de “esses mackenzistas são um bando de direitistas, filhinhos de papai, folgados, mimados, que não querem o ENEM porque são contra negros e pobres na universidade”. É um pensamento tão lógico quanto “a formiga caminhou até as nuvens porque a Rússia fica na África”. Mas a esquerda gosta do irracional, do utópico, do entorpecido, então para quê lógica se eu posso falar um monte de asneiras e conquistar aplausos em uma assembleia estudantil e “curtidas” no Facebook para inflar meu ego? É uma estratégia tão simples e eficiente que até a direita adota quando conveniente.

Não há erro nenhum em defender tradição e valor de um diploma, especialmente quando se paga mensalidades abusivas para obtê-lo. O erro está em julgar a validade do ENEM enquanto instrumento de seleção, como se o vestibular não fosse menos eficiente, na medida em que cobra uma simples memorização e assimilação de conteúdos desnecessários para a formação de um cidadão (se duvida, olhe à sua volta durante uma aula na faculdade e pergunte-se se todas aquelas pessoas merecem estar ali simplesmente por terem ido bem em uma prova quase totalmente incoerente com o curso escolhido).

Mas quem tem errado feio são os que apontam seus dedos (sujos) aos manifestantes e os acusam de racismo, elitismo, etc. Racismo virou para alguns esquerdistas o mesmo que a palavra “tipo” virou para o brasileiro comum: encaixe-a em qualquer frase toda vez que um termo mais apropriado lhe fugir à cabeça. E, com isso, eles destruíram o sentido real do termo, atrapalhando a própria luta que apoiam. Já vi muitos dizendo que não há negros no MACK porque a instituição é racista. A lógica provavelmente é aplicada a outras universidades, inclusive a minha. Só que ela não faz o menor sentido. Como dito acima, o vestibular seleciona apenas os que decoraram mais informações, só isso. Ele não pergunta a etnia do candidato, quer saber apenas se ele memorizou tudo do jeito que o professor ensinou em suas aulas do Ensino Médio. Se os negros têm acesso a uma educação que os permita competir com os brancos em um exame desses, é outra história que não abordarei aqui.

O post acima em poucas palavras: Na minha universidade, existe uma frase pintada em várias paredes: “odeia a mídia? seja a mídia.”. É mais ou menos assim: “Não gosta do que vê? Faça melhor”. Os antimackenzie não gostaram do que viram durante as manifestações uspianas – e não estão fazendo melhor agora.

Ao som de Michael Romeo.