Resenha: Alice – Alice Caymmi

Reprodução da capa do álbum (© Flecha de Prata Edições Musicais/Universal Music International)

Depois de dois álbuns marcados por MPB, pop e rock, a cantora carioca Alice Caymmi, mais uma talentosa descendente do grande Dorival, rende-se ao pop e ao eletrônico em seu segundo lançamento homônimo – embora apenas pelo primeiro nome. Em 90% dos casos, eu rechaçaria um artista por realizar tal mudança em seu som, mas para a sorte da resenhada, não estamos falando aqui de qualquer artista.

Este disco bem breve, com menos de meia hora de música, revela brilho próprio em faixa. A abertura “Spiritual”, como o nome sugere, traz um clima mais orgânico, uma roupagem acústica, que perdurará até a faixa seguinte, “A Estação”, na qual o piano segue o ritmo ditado por uma bateria eletrônica – é a ponte para a realidade pop desta obra.

“What’s My Name (Oduduá)”, que poderia ter sido a abertura devido a seu “quê” de cartão de visitas, abraça com mais força a nova fase, mas é em “Vin” que testemunhamos a consagração da nova era da cantora: temos aqui elementos de pop, música eletrônica, um leve aroma funk, uso de autotune e até scat singing que mais parece um exercício fonoaudiológico.

A primeira participação aparece em “Inimigos”, na pessoa do rapper Rincon Sapiência, que ajudou a deixar mais interessante este hip-hop eletrônico. E aí vem “Inocente”, o primeiro single, escrito em parceria com Ana Carolina, e uma boa escolha para carro-chefe do trabalho. Pode não ser uma das melhores, mas acaba sendo uma das que mais bem sintetiza a proposta musical de Alice.

A tríade que marca a reta final do álbum é também seu ponto alto. A música refinada reencontra seu espaço na melancólica balada pianística “Agora”, reminiscente de Rainha dos Raios, e na qual até o vozeirão de Alice ganha uma oportunidade para nos tocar com notas mais altas. Em “Sozinha”, a cantora chuta o balde mais uma vez e usa cordas em pizzicato para abrir mais um pop, que aqui servirá de veículo para uma letra auto-afirmativa. E nem a presença do intragável Pabllo Vittar consegue estragar a simpática “Eu Te Avisei”.

Se no primeiro disco Alice foi quase toda autoral e no segundo ela foi quase toda intérprete, neste ela mescla faixas 100% suas, coassinadas por terceiros ou totalmente alheias. Isso talvez contribuiu para a diversidade da música, ainda que apenas em nove peças.

E agora, a questão mais importante: por que não torcer o nariz para o novo direcionamento da cantora? Bem, em primeiro lugar… existe o conceito de “verdadeira Alice”? “Alice das antigas”? Não! Os trabalhos de estúdio que ela lançou (ainda são só três, é verdade) são bem diferentes uns dos outros. E quem já foi a um show dela sabe que mesmo entre um álbum e uma turnê as canções já sofrem grandes transformações.

Alice Caymmi é artista inquieta, que não parece gostar de zonas de conforto nem de fórmulas, o que nos dá segurança para afirmar que o quarto disco dificilmente será uma continuação deste. E mesmo que Alice seja recheado por muitos dos elementos que têm estragado a música brasileira, ele ainda ganha muitos pontos pela maneira profissional com que tudo foi conduzido e, principalmente, pela forte presença musical da própria artista.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Inocente”:

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