Resenha: CATTO – Filipe Catto

Reprodução da capa do álbum (© Biscoito Fino)

Depois do fraco Tomada, de 2015, o gaúcho radicado em São Paulo Filipe Catto, medalhão LGBT brasileiro contemporâneo, brinda a reta final de 2017 com um trabalho melhor que seu antecessor e com mais personalidade que sua já ótima estreia Fôlego, de 2011.

Com uma produção bem modernosa, mas calcada em jogadas das antigas, CATTO surpreende em muitas faixas. Tudo começa já na melancólica abertura “Como um Raio”, gravada originalmente por Rômulo Fróes, na qual Filipe põe sua delicada voz sobre uma tocante camada de cordas. O prelúdio emenda na ótima “Lua Deserta”, com uma inesperada roupagem Pink Floyd na ala instrumental – algumas frases parecem até dialogar com o cativante riff eletrônico de “Breathe”.

A partir daí, temos uma certa fórmula instrumental que se reproduzirá ao longo das oito faixas restantes, sendo três regravações e cinco inéditas. Todas as músicas de CATTO são, em maior ou menor grau, profundas e densas e envolvem basicamente a voz de Filipe sobre algum arranjo que torna cada peça uma obra particular, um universo em si mesma.

No time das regravações, temos uma homenagem ao rock lusitano em “Canção de Engate”, de Antônio Variações, que ganha uma roupagem bem bacana e madura quase tão boa quanto sua versão original; “Faz Parar”, adequadamente interpretada com o arranjo mais minimalista do disco, quase um sussurro se comparado ao resto do álbum; e “Arco de Luz”, que transforma o samba de Martinho da Vila e Marina Lima num rock moderno.

E há também as inéditas, ora coassinadas por Filipe, ora assinadas por terceiros. “Só Por Ti”, parceria com Zélia Duncan, que participa da faixa também com sua voz, tem na ilustre presença da cantora fluminense a possível explicação para sua magia particular.

“Um Nota Um” e “É Sempre o Mesmo Lugar” são quase inteiras calcadas em elementos eletrônicos bem modernos, mas a primeira termina em batucada, evidenciando coragem para fugir do lugar-comum. Já na reta final, temos “Torrente”, dona de um ritmo e uma jogada bem R&B, permitindo-nos imaginar como seria uma abertura de um filme de 007 com ela; e o encerramento “Eu Não Quero Mais”, que fecha o álbum com um honesto e espontâneo “eu quero mais é que você se foda” e merece mais que um lyric video, uma vez que serve como perfeito cartão de visitas para o disco.

É verdade que os arranjos das faixas podem parecer repetitivos logo de cara, mas uma audição mais cuidadosa revela as nuances que tornam cada música um trabalho de mérito próprio. Como Alice Caymmi fez em Rainha dos Raios (outra joia brasileira desta década), de 2014, Filipe fez de cada composição uma entidade autossuficiente ao mesmo tempo em que fez de CATTO uma série coesa de canções.

Nota = 4/5. Recarregado, Filipe Catto se firma como potência emergente da nova MPB, embora este seja um rótulo um tanto genérico e talvez até tortuoso para o som deste gaúcho, que já fincou sua bandeira nos territórios do samba, do indie, do rock e da música eletrônica.

Abaixo, o vídeo de “Lua Deserta”:

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