Resenha: Ghost Ship – Theocracy

Reprodução da capa do álbum (© Ulterium Records)

Reprodução da capa do álbum (© Ulterium Records)

Duas coisas eu faço questão de esclarecer logo de cara: a primeira é que eu sou ateu. A segunda é que eu torço o nariz para os termos “metal cristão” e “white metal”, pois eles se referem apenas às letras, mas não dizem absolutamente nada sobre o som de uma banda.

Assim, vamos ao tema do texto: o Theocracy é um quinteto estadunidense de power metal que veio para provar que o chamado metal cristão não precisa ser piegas e, mais importante ainda, que o power metal de qualidade não está restrito ao eixo América do Sul-Europa-Extremo Oriente. Não por um acaso, o grupo foi lucrar com seu sucesso nesses lugares, e não no seu país de origem.

Ghost Ship começa com tudo na tríade de abertura “Paper Tiger”, “Ghost Ship” e “The Wonder of It All”. “Wishing Well” e “Around the World and Back” desaceleram um pouco, mas não diminuem o calibre do álbum. A potência volta em “Stir the Embers” e “Call to Arms”. Após o respiro “Currency in a Bankrupt World”, o lançamento encerra com força total com “Castaway” e “Easter”. Esta última é a tal faixa épica que todo disco de power metal que se preze tem, mas não chega a ser superior à média do trabalho.

Resumindo, a parte instrumental é primorosa e uma verdadeira aula de power metal. Até alguns medalhões do gênero poderiam se inspirar neste e em outros bons álbuns recentes (Rabbits’ Hill Pt. 2, por exemplo) para fazerem jus ao passado glorioso do estilo.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para as letras. Você pode até achar que, por causa do rótulo de metal cristão, o Theocracy escreve letras pedindo que você aceite Jesus, sinta o toque divino e blá blá blá. Nada poderia estar mais longe da verdade. As letras lidam com temas mais profundos, concretos e universais da sociedade, traçando relações com os ensinamentos de Cristo e passagens bíblicas.

Há peças sobre sentir-se sozinho e diferente dos outros (“Ghost Ship” e “Castaway”), desejar o bem sem agir concretamente para fazê-lo (“Wishing Well”), suicídio (“Currency in a Bankrupt World”) e até uma tentativa de abordar musicalmente as aflições e angústias dos apóstolos de Jesus entre sua crucificação e ressurreição (“Easter”).

Se você for fã de power metal independentemente das letras, vai gostar deste quinteto instantaneamente. Se você se incomoda com letras que não dialogam com sua realidade, a recomendação permanece. O Theocracy não está aqui para te convencer de nada, diferentemente de tantos pastores picaretas mundo afora. Eles querem simplesmente abordar questões das nossas vidas (em escala individual ou social) através de uma ótica cristã – ainda que “eles” remeta 90% ao líder da banda, Matt Smith, que compõe quase tudo sozinho.

Nota = 5/5. Sem dúvidas um dos melhores lançamentos de power metal em 2016 e o melhor disco dos rapazes até hoje. Não importa a sua fé: se você é devoto de Ronnie James Dio, Ghost Ship merece sua audição.

Abaixo, o vídeo de “Ghost Ship”:

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