Resenha: The Astonishing – Dream Theater

Breve histórico: praticamente um supergrupo, o quinteto estadunidense Dream Theater é o maior nome da história do metal progressivo e uma das poucas bandas do gênero a atingirem um sucesso que possibilita a realização frequente de elaboradas turnês e clipes.

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Aos poucos, enigmaticamente, o Dream Theater foi revelando o que seria seu 13º álbum de estúdio. A princípio, as referências a guerras, rebeliões e temas medievais indicavam que lançariam um RPG nos moldes de Skyrim e afins. E a ideia ainda não está descartada: o guitarrista, criador do conceito e líder não-declarado do grupo, John Petrucci, já disse à revista Billboard que visualizou a história do disco sendo transformada em um musical, filme, livro ou videogame.

Todo esse marketing não foi suficiente para preparar o fã para o que estava por vir. The Astonishing é simplesmente o projeto mais ambicioso dos 30 anos de carreira da banda, e seu título não poderia ser mais apropriado (o nome significa “surpreendente”, “espantoso” em inglês).

O tamanho da história concebida por John não coube em um CD só, então o enredo foi dividido em dois atos: um com 20 faixas e outro com 14, somando mais de duas horas de música. A relação duração total/número de faixas resultou em um álbum atípico para o Dream Theater: cheio de canções curtas, com apenas três excedendo a marca dos seis minutos e a mais longa batendo nos 7:40. Além disso, a necessidade de se contar uma história e expressar os pontos de vista de múltiplos personagens deixaram menos espaço para as longas sessões instrumentais.

Mas pode ficar tranquilo. Eu, que sou apreciador confesso de agressividade e fritação preenchendo canções longas, não senti falta de nada disso ao longo das 34 faixas de The Astonishing. O quinteto acerta ao sair de sua zona de conforto – se é que podemos chamar aquele festival de acrobacias técnicas de “conforto” – sem perder sua essência.

A escassez de solos e mudanças múltiplas de andamento na parte instrumental do disco é compensada por um trabalho em que a banda deixa a fritação de lado para apostar em diversidade. Enquanto a dupla Mike Mangini (bateria/percussão) e John Myung (baixo) mostra mais sintonia do que nunca para ditar o ritmo de cada momento do álbum (só não vale usar a caixinha de som do celular e reclamar que não dá pra ouvir o baixo), o guitarrista John Petrucci e o tecladista Jordan Rudess (que assinam a música) estalaram os dedos e criaram tudo em volta da guitarra, do violão, do piano e das cordas, resultando em um som mais orgânico e polido que em discos anteriores.

Petrucci suavizou um pouco sua guitarra para se encaixar na proposta mais leve de The Astonishing, enquanto Rudess manda muitos timbres inéditos para preencher as harmonias, incluindo brass sections que nos remetem a castelos (embora a história se passe no final do século XXIII) e interlúdios eletrônicos para representar as máquinas da época do enredo. Temos direito até a uma gaita de foles em “The X Aspect”, tocada por Eric Rigler.

Comandando os vocais, James LaBrie assumiu a responsabilidade de representar vários personagens sozinho, mudando o tom de voz para se adequar a cada um. O resultado não convence de imediato e, sem as letras para acompanhar, a história não fica muito compreensível, sobretudo no que diz respeito a quem está dizendo cada frase. Versos previsíveis e uma premissa clichê não estragam a bela história, e logo nas primeiras escutadas você já estará lamentando a morte de um dos personagens (sem detalhes para não dar spoilers).

Apesar dos diversos climas retratados, a coesão do álbum é garantida por introduções, interlúdios e encerramentos bem definidos, de modo que a música flua estavelmente. A maioria das faixas não emenda uma na outra; assim, é possível ouvi-las fora de ordem, embora isso obviamente quebre a história.

É precipitado dizer que The Astonishing inaugura uma nova fase para os rapazes de Long Island. Na verdade, estou confiante de que seu sucessor continuará de onde o Dream Theater (resenhado neste blog) parou, ou seja, continuará apresentando faixas longas e solos insanos. Não se trata de um divisor de águas, tem mais cara de projeto paralelo, aventura. Além disso, o site lançado pela banda para divulgar o álbum evidencia um universo que vai além das letras e talvez esconda muitos segredos. Somando isso ao fato de que a obra como um todo não é lá de fácil digestão, vale a dica: desconfie de qualquer resenha escrita menos de um mês após seu lançamento (incluindo esta, obviamente). Desafie também qualquer conclusão que você tirar antes da quinta ou sexta audição.

Nota = 8,5. Para quem tem uma mente aberta, The Astonishing na certa será um trabalho sedutor. Apostar num som menos complexo tornou-o mais acessível, e o resultado será lembrado futuramente não como o melhor (talvez nem esteja entre os melhores), mas como um projeto ambicioso e ousado que revelou-se uma agradável surpresa na discografia do Dream Theater.

Abaixo, o áudio de “Moment of Betrayal”:

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2 Respostas para “Resenha: The Astonishing – Dream Theater

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