Resenha: Em “High Hopes”, Bruce Springsteen mostra que o familiar também pode soar novo

Breve histórico: Bruce Springsteen é um dos mais aclamados roqueiros dos Estados Unidos e está acima de qualquer crítica. Na ativa com sua banda de apoio E Street desde o começo dos anos 70, o músico coleciona prêmios Grammy, hits nas paradas, turnês de lotar estádios e shows memoráveis. Do alto de seus 64 anos, não demonstra nenhum sinal de que irá parar com a música. Além disso, Bruce é aquele típico “american nice guy” que participa de eventos beneficentes, faz letras críticas e simpáticas à classe média estadunidense, apoia causas como o casamento homoafetivo e faz campanha pelo Barack Obama.

Reprodução da capa do álbum (© Columbia Records)

Reprodução da capa do álbum (© Columbia Records)

O álbum High Hopes não é um disco qualquer. Ele traz apenas covers ou regravações de raridades e canções antigas. Mesmo assim, não deixa de ser uma novidade. É como uma edição antiga de um jornal qualquer reescrita em linguagem mais contemporânea e diagramado em um formato mais moderno, se me permitem a analogia pouco feliz.

Antes de mais nada, é preciso apontar a participação de alguém cujo envolvimento foi determinante na sonoridade do álbum. Trata-se de Tom Morello, guitarrista do quarteto estadunidense Rage Against the Machine e famoso também pelo ativismo político dentro e fora do conjunto. Após participar da etapa australiana da turnê mundial do álbum anterior, Wrecking Ball, em substituição do guitarrista Steven Van Zandt, então ocupado com as filmagens de uma série televisiva, Tom passou a compor algumas canções com Bruce nas horas livres. As parcerias culminaram neste álbum, que no fim das contas não traz nenhuma composição inédita, mas tem Tom participando de oito das doze faixas.

O disco abre com sua faixa-título e primeiro single, originalmente composta por Tim Scott McConnell, numa versão retrabalhada com metais proeminentes e ritmo mais cativante. A segunda faixa, “Harry’s Place”, é uma das várias que foram escritas para discos anteriores, mas acabaram deixadas de lado. Neste caso, a faixa seria parte do The Rising, mas acabou fora. 11 anos após o lançamento do disco, é possível afirmar que a faixa não faria muita diferença, mas aqui neste álbum, ela dá um toque meio pop, ajudando na diversificação musical alcançada aqui. As serenas e quase sonolentas “Down in the Hole” e “The Wall”; a poderosa “Heaven’s Wall”; e a sinfônica “Hunter of Invisible Game” se juntam a este grupo de “sobras”. Destas, “The Wall” destaca-se pelo significado: foi escrita após uma visita que Bruce fez ao memorial da Guerra do Vietnã em Washington DC e em homenagem a um músico conterrâneo, Walter Cichon, que foi para a citada guerra e não voltou para sua casa na Nova Jérsei.

“American Skin (41 Shots)” é a faixa mais emocionante do disco. Foi escrita originalmente em 2000, após um imigrante ganês ser morto em Nova Iorque com 41 tiros disparados por policiais à paisana. Quase 15 anos após o caso (ocorrido em fevereiro de 1999), a crítica contida na música segue mais atual do que nunca. Bruce voltou a tocar a canção ao vivo em shows recentes, desta vez motivado pelo assassinato de Trayvon Martin, e resolveu incluí-la no disco, numa versão de tirar o fôlego.

“Just Like Fire Would”, que abre com um riff que remete à abertura de “How Bizarre”, hit do OMC, é um dos dois covers de bandas punks, o outro sendo “Dream Baby Dream” (respectivamente, covers das bandas The Saints e Suicide). São faixas relativamente leves, mesmo em suas versões originais, e ganham aqui aquele toque característico do “heartland rock” de Bruce. No caso da segunda, que ficou como faixa de encerramento, fechou o disco com chave de ouro.

Outra faixa que vale destacar é “The Ghost of Tom Joad”, uma velha conhecida dos fãs que dá nome também ao décimo primeiro álbum do artista. Foi retrabalhada algumas vezes ao vivo já com Tom Morello na guitarra, lembrando que o próprio Rage Againt the Machine já fez uma versão da faixa. Neste disco, ela ganha uma versão bastante interessante na qual Tom não só faz um solo brilhante a ponto de dar arrepios, como também participa com alguns vocais, tornando este o ponto alto do disco.

Completam o álbum a alegre “Frankie Fell in Love” e “This is Your Sword”, de origens desconhecidas para este que vos escreve.

Nota = 8,5. High Hopes, conforme explicado anteriormente, não é um dico de inéditas, mas soa como tal. Bruce fuçou seu acervo e resgatou verdadeiras pérolas esquecidas em sua vasta carreira e soube retrabalhá-las de forma a ganharem um toque atual e ainda assim inconfundível para quem aprecia o trabalho do músico. E reafirma uma vez mais, se é que isso alguma vez já foi colocado em questão, a relevância de Bruce Springsteen como um dos principais roqueiros da terra do Tio Sam.

Abaixo, o vídeo da faixa-título:

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