Resenha: “Dream Theater” não levou o nome da banda por acaso

Breve histórico: principal nome do metal progressivo, Dream Theater é considerada uma das maiores bandas do mundo. Motivos não faltam: o quinteto estadunidense tem quase 30 anos de carreira, foram indicados a um Grammy, e seus membros conquistaram grande reconhecimento individual por sua técnica e talento nos respectivos instrumentos.

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

O álbum chama a atenção pelo título: Dream Theater. Não que isto tenha a ver com a resenha, mas o fã talvez tenha se perguntado o que o ex-baterista e membro fundador Mike Portnoy deve ter pensado ao descobrir que o segundo álbum sem sua participação levaria o nome do grupo que ele “comeu, respirou e cagou 24 horas por dia, sete dias por semana durante 25 anos

Intrigas à parte, a banda vem divulgando este álbum como o melhor que já escreveram, e como o disco em que melhor se encontraram. “É o que todos dizem”, pensaria um fã. Mas até que a premissa não está longe da verdade.

A primeira e única decepção do álbum é a capa. Após duas décadas e meia de imagens elaboradas, complexas ou ao menos bonitas, o Dream Theater entrega algo insosso e simples demais. Arte propriamente dita, só no encarte do CD.

Enfim, ao que interessa. Como é um álbum de nove faixas apenas, não custa abordá-las uma por uma. Algumas das informações abaixo foram retiradas de uma entrevista no site oficial da banda com o vocalista James LaBrie e o guitarrista John Petrucci, na qual a dupla comenta cada canção do disco.

A introdução do álbum, “False Awakening Suite”, foi gravada com cordas autênticas e pensada como uma música para abrir shows. E tem, de fato, todas as características de uma abertura: é empolgante, instrumental e tem aquele gosto de “coisas boas estão por vir”.

“The Enemy Inside” vem logo em seguida. Foi o primeiro single divulgado. Aberta com um riff matador que lembra um pouco de metalcore (prevejo ameaças de morte por ter dito isso, mas é fato), teve recepção positiva por parte dos fãs. É boa, mas logo será ofuscada pelo resto do dico.

“The Looking Glass” é apenas a terceira faixa mas já é a grande surpresa de Dream Theater, e os fãs com certeza levantarão uma sobrancelha para ela. É que trata-se de algo com uma forte atmosfera de hard rock (ou arena rock, como John colocou na entrevista). Não aquele hard rock de pegar a estrada com motos, mas um hard mais próximo do progressivo, claro. Uma surpresa, repito, mas grata, ao menos.

“Enigma Machine” é a outra faixa instrumental. Desde 2003, com “Stream of Consciousness” do Train of Thought, a banda não compunha uma faixa sem voz, e os fãs estavam sentindo falta. Conforme prometido por John, traz solos de todos os instrumentos, embora os de baixo e bateria sejam bastante breves.

Na entrevista, James afirmou que “The Bigger Picture” teria influências pop. Felizmente, ele não se referia ao pop das dubladoras cantoras que dominam as paradas, mas a músicas próximas de baladas. O começo dela tem, de fato, todas as características de uma balada progressiva. É belo, simples, lento e centrado no piano. Contudo, logo a canção aumenta o volume e o peso e vira algo mais complexo. Essas mudanças relativamente bruscas de dinâmicas na faixa (já evidenciadas pela breve e pesada introdução antes do momento sereno) tornam esta canção um dos melhores momentos do disco. E, conforme John havia comentado, ela traz um dos melhores momentos de James. Não que ele esteja se esgoelando e alcançando notas agudas, mas é nítida a sua emoção e profundidade nos versos. Uma faixa especial para aqueles que dizem gostar de Dream Theater mas não gostam do James LaBrie, como se isso fosse possível.

“Behind the Veil” traz uma introdução leve e sonolenta criada por Jordan Rudess. Era para ser um trabalho com cordas, mas a banda mudou de ideia, pois “Illumination Theory” já trazia algo assim. Assim, o tecladista teve liberdade para criar algo especial. Antes que alguém possa dormir, contudo, o resto da música vem com alguns riffs e solos de guitarra cativantes e muito bem trabalhados.

“Surrender to Reason” foi a primeira música feita para o álbum. A única com letras escritas pelo baixista John Myung, não por um acaso tem um baixo bem proeminente. Aliás, o baixista parece ter conquistado bastante espaço e teve momentos de destaque em boa parte do disco.

Segundo single divulgado e a segunda balada do álbum, “Along for the Ride” teve uma recepção mais amarga, com críticas dirigidas, vejam só, a Jordan, por usar um timbre “estranho” em seu solo. Estranho ou não, ele já usa vozes parecidas desde os tempos de Six Degrees of Inner Turbulence, como pode ser visto em “Solitary Shell”. As críticas a Jordan acabaram ofuscando o excelente trabalho que Myung fez também nesta faixa.

Encerrando a obra, eis que chegamos a “Illumination Theory”, que quase deu nome ao álbum, segundo John. Como toda faixa longa deve ser, ela traz tudo o que um apreciador de boa música pode querer: momentos pesados, leves, rápidos, lentos, complexos, simples. A introdução cinematográfica, os primeiros minutos bem musicados, o interlúdio de sons místicos seguidos por um belíssimo trabalho de cordas, a passagem mais pesada que logo cede espaço para uma série de solos alucinantes de Jordan e John, o encerramento com um solo de piano acompanhado por uma guitarra no estilo “The Count of Tuscany”, tudo isso contribui para fazer desta faixa algo que vale pelo álbum inteiro e que deverá obrigatoriamente figurar em qualquer lista futura do tipo “Top 10 músicas do Dream Theater”, e também em “Top 10 músicas de metal progressivo”. Todos os membros usaram suas habilidades ao máximo nesta que é a quinta maior canção já feita pelo grupo (terceira, se desconsiderarmos “In the Presence of Enemies” e “Six Degrees of Inner Turbulence”, que foram divididas em faixas menores).

Vale lembrar que o álbum marca a “segunda estreia” de Mike Mangini. Em A Dramatic Turn of Events, ele havia apenas tocado linhas pré-programadas por Petrucci. Desta vez, ele esteve envolvido no processo de criação desde o início. E o resultado, como era de se esperar, foi positivo. Um dos melhores bateristas da atualidade tocando com o grupo como se fosse um membro fundador.

Este álbum não recebeu o nome da banda que o criou por acaso. Tudo aquilo que faz parte do som do Dream Theater está aqui: qualidade, peso, serenidade, velocidade, lentidão, emoção, dinamismo, variedade, inovação, criatividade.

Nota = 9. Só o tempo dirá se este é o melhor álbum já feito pelo Dream Theater, mas ele ao menos supera seu antecessor (porcamente resenhado neste blog), que pode ser visto agora como um disco de transição para um novo momento da banda, concretizado agora. Fora a capa, os fãs não terão absolutamente nenhum motivo para se decepcionar.

Abaixo, o lyric video de “The Enemy Inside”:

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