Leituras do Estadão: “Nossa única finalidade na sociedade: reportagem”

Quanto acontece alguma tragédia de grandes proporções no Brasil, duas consequências podem ser esperadas por todos: a descoberta de uma sequência de erros que levou ao triste desfecho, e uma cobertura sensacionalista por parte dos meios de comunicação de maneira geral. Aqui, dedicar-me-ei a comentar a segunda.

Quando foi anunciado o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, RS, todos já sabiam que haveria cobertura exagerada, pedidos de entrevista desprovidos da boa e velha noção, fotos e imagens apelativas. Mas existia um certo limite que até ontem nenhum veículo tinha se atrevido a ultrapassar. Até ontem.

O jornal O Estado de S.Paulo, por meio de sua página oficial no Facebook, publicou uma nota com os 141 primeiros nomes confirmados de vítimas (até a publicação deste texto, eram 233 mortes confirmadas). Até aí, tudo bem, um certo serviço de utilidade pública. Mas o problema já veio antes dos nomes. Na nota, o veículo afirmava o seguinte: “[…] Estamos com todos os repórteres tanto aqui em SP como no RS destacados para continuar a fazer uma grande cobertura na versão online e na impressa. Se vocês conhecerem o perfil no Facebook de algum dos nomes da lista abaixo, por favor, deixem o link no campo de comentários” (grifo meu).

Um usuário, muito sábio, perguntou com que finalidade o jornal pedia aquilo. O diário, não satisfeito com o absurdo que publicou e não percebendo o que a pergunta representava, ainda se atreveu a responder: “Para a nossa única finalidade na sociedade: reportagem.”

O post original, o primeiro comentário perspicaz, e a resposta infeliz.

O post original, o primeiro comentário perspicaz, e a resposta infeliz.

Após o que eu suponho ter sido uma enxurrada de comentários escandalizados com o atrevimento do jornal, o post foi apagado. E poderia assim ter ficado, no limbo de postagens excluídas do Facebook, presente apenas na memória de alguns e nos “prints” de outros mais ligeiros. Mas não ficou.

O Estadão não se deu por vencido. Publicou uma segunda nota, na qual reafirmava a escalação de repórteres em SP e no RS para cobrir o caso; repetia o pedido, explicando que queriam fazer “reportagem e checagem de fatos”; e finalizava anunciando a nobre intenção de “cobrar as autoridades para que tragédias assim não ocorram novamente”.

O segundo post, com a justificativa do injustificável.

O segundo post, com a justificativa do injustificável.

Depois de uma provável segunda enxurrada de reclamações e “se toquem!”, o periódico retirou a nota e, até agora, parece ter (finalmente) desistido. Mas é claro que não se retratou. Nem comentou o assunto novamente. O que não foi tão necessário, visto que ele correu solto nas redes sociais, embora com menos ênfase do que eu esperaria.

Será que vale tudo por uma “boa” reportagem? É realmente necessário buscar informações sobre a vida de cada uma das mais de 230 vítimas? Claro que não é – e menos necessário ainda é pedir para os leitores o fazerem. Ora, se querem localizar os perfis, que o façam com suas próprias pernas. Não precisam tornar público seu apetite por uma notícia sensacionalista. That post was bad and you should feel bad about it.

Onde há fumaça…
O Estadão não agiu muito pior que outros veículos de mesmo porte.

O G1 fez uma matéria imensa apresentando cada uma das vítimas. Não, G1, eu não quero conhecê-las. Elas estão mortas. De que me adianta saber agora que uma delas estudava na UniX, e outra morava na Cidade Y? Ou que fulano tem Z anos? Quem considera essas informações importantes? Como fica um pai ao saber que o Brasil inteiro conhece o nome, a foto, a idade, a escolaridade do filho só porque um editor achou boa a ideia de juntar tudo numa “reportagem especial”?

A Folha publicou fotos dos mortos em seu Facebook também. Outra medida desnecessária. As televisões? Melhor nem comentar. Não vou chover no molhado em plena terra da garoa.

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