Resenha: “Sinais dos Tempos” mostra um Zé Ramalho simples, porém rico

Zé Ramalho é uma das maiores vozes da música brasileira contemporânea. E é também, embora alguns ignorem, um dos maiores nomes do nosso rock também. Apesar de ter flertado com o forró e o sertanejo, ele conseguiu, nos mesmos álbuns em que trouxe esses estilos desprezados pelos roqueiros, apresentar peças de rock and roll dignas de nota, MPB marcante e ritmos nordestinos que nos lembram o sertão de Vidas Secas.

Reprodução da capa do álbum (© Avôhai Music)

Só que o rock está praticamente ausente em Sinais dos Tempos, seu vigésimo terceiro disco de estúdio (incluindo aí os vários álbuns de covers que ele lançou ultimamente e o raro Paêbirú, apesar do próprio Zé desconsiderá-lo como um item de sua discografia). Mesmo assim, ele deve ser escutado com atenção, pois não é um álbum qualquer. Em primeiro lugar, porque o disco foi lançado sob sua recém-fundada gravadora própria, a Avôhai Music. Zé, que sempre foi avesso a interferências externas no seu trabalho, conquista aqui a independência total para mexer no seu trabalho, tão sonhada por muitos músicos.

Outro fato notável é que o disco recebeu cobertura relativamente grande da mídia nacional para um artista brasileiro sem muito apelo comercial, com direito a uma matéria de várias páginas na nobre revista Serafina, suplemento mensal da Folha de S.Paulo. Além disso, este álbum é praticamente conceitual: Fala do tempo. Zé Ramalho está entre o começo e o meio de sua sexta década de vida, e já sente os efeitos dos anos que se passaram (possivelmente agravados pelo seu passado marcado pelo consumo de cocaína e outras drogas) e a aproximação do fim. Pode parecer meio apocalíptico, mas o teor de Sinais dos Tempos é exatamente esse.

E isso começa a ficar claro com a abertura “Indo Com o Tempo”. Não é a melhor do álbum, mas a letra deixa claro o tema que será abordado nas onze faixas seguintes, que alternam entre músicas bastante lentas, como “Olhar Alquimista” e “O Que Ainda Vai Nascer”; e faixas mais “ramalhanas”, como Sinais, que traz de volta as letras profundas e a voz grave de Zé, além de um riff leve, porém marcante no violão, instrumento que dita a base da música em boa parte do disco quase totalmente desprovido de guitarras.

Além das faixas citadas acima, são destaques também: “Lembranças do Primeiro”, dona de um ritmo cativante guiado por um riff de piano que lembra de longe “Even You Brutus?”, do Red Hot Chili Peppers; “Um Pouco do Que Queira” e “Rio Paraíba”, onde o acordeão não nos deixa esquecer das raízes nordestinas do cantor; e “A Noite Branca”, praticamente uma regravação de “A Noite Preta”, presente no primeiro álbum solo de Zé, autointitulado.

Nota = 8,0. Sinais dos Tempos é um álbum muito simples musicalmente falando, se comparado com os últimos trabalhos de Zé Ramalho, mas o paraibano de Brejo do Cruz soube compensar isso com letras que dão muita consistência à obra e uma atmosfera musical serena e condizente com a temática do álbum. As palavras “lembrança”, “passado”, “tempo” e seus respectivos derivados são repetidas à exaustão no decorrer do disco, para deixar bem claro o “clima” que o envolve.

Abaixo, o vídeo de “Sinais”:

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2 Respostas para “Resenha: “Sinais dos Tempos” mostra um Zé Ramalho simples, porém rico

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