Amor, do latim “sofrer”

Após meses de (imperdoável) inatividade, volto a escrever nesse negócio…só que não vim aqui falar de música, mas sim de uma das grandes inspirações de quem trabalha com ela…o amor! Confira minha crônica rabugenta porém real sobre o atual cenário deste sentimento que anda em baixa:

Dizem que o humano está cada vez mais (ir)racional e distante de suas origens animais. Mas é curioso notar que estamos demonstrando uma tendência inconsciente de voltar a nossas raízes primitivas em determinados aspectos, como podemos ver na revolução pela qual aquilo que chamamos de amor está passando. E olhe que antes mesmo de tudo isso começar, mal sabíamos que diabos era o amor — a não ser que a tal da chama que arde sem se ver tenha algum embasamento científico ainda não divulgado.

Antes, o casamento era visto como algo tão natural quanto o envelhecimento. Era uma etapa obrigatória na vida de qualquer ser humano, em virtualmente todas as culturas e épocas. Mesmo sendo completamente incompatível com a natureza poligâmica e individualista do homem.

Só que os tempos estão mudando. Não, os tempos já mudaram. Os homens e as mulheres já vivem muito bem um sem o outro. Em parte, isso é responsável pelo fim do casamento como meta elementar da vida. Mulheres modernas se relacionam com vários homens, não tem mais medo de ir para a cama no primeiro encontro, algo que parecia um bicho de sete cabeças há pouquíssimos anos. Assim como animais a partir dos quais evoluímos, estamos tentando praticar o desapego, que só vem com a chegada de filhos.

Contudo ainda demonstramos forte desejo de nos juntar a alguém, especialmente quando jovens. Por quê? Porque, apesar de animais, ainda somos humanos. Influenciados por filmes, músicas, novelas e postagens patéticas do Facebook (tão dignas de crédito quanto uma nota de R$ 15,00). Somos levados a acreditar que um dia aquele alguém especial surgirá como num passe de mágica. O que não se conta, mas a vida trata de revelar, é que esse alguém é mutante. Ontem, ele foi a gatinha da balada, hoje é a coleguinha do trabalho, amanhã pode ser a filha da vizinha. Aliás, podem ser as três juntas, por que não?

Esse fenômeno, que geralmente acomete os mais jovens, dará lugar, mais tarde, aos 30, a outro fenômeno. Depois da terceira década vivida, ou mesmo antes disso, poucos são os que ainda querem dar o braço a torcer a ponto de firmar um casamento. A “geração divórcio” surgiu há pouco tempo, nos anos 80, quando o fim dos casamentos infelizes começou a se tornar uma realidade facilmente alcançável para todos. Ninguém mais se sentia preso a seu cônjuge, e, com o passar dos anos, perdeu-se o pudor de declarar abertamente o fim da felicidade matrimonial e a consequente separação, até chegarmos a um ponto em que casamentos terminam ao menor sinal de crise.

Tal geração coincide com outra formada por pessoas que já não querem mais sofrer, seja porque acompanharam as desventuras dos pais e conhecidos mais velhos, seja por terem passado por desilusões quando mais jovens. Aliás, como tudo nessa vida, até a dor do amor já começa a ser sentida cada vez mais precocemente, quando crianças pré-adolescentes de 12 anos já dizem estar “sofrendo por amor”. Isso mesmo, amor, do latim “sofrer”. Até os 20, 30, ainda sofrerão muitas, muitas “barras”. O resultado disso são pessoas cada vez mais frias e fechadas, que criam mecanismos inconscientes de defesa contra novas decepções. A maioria nem percebe que as mudanças em suas atitudes se devem ao fato de estarem construindo barreiras contra o resto do mundo (qualquer semelhança com o famoso álbum do Pink Floyd é mera coincidência). Preferem chamar a isso de “amadurecimento”.

Da mesma forma que somos educados desde pequenos pelos nossos pais a não permitir a entrada de estranhos em casa, a vida nos ensina na juventude a não permitir a entrada de estranhos em nossos corações. Permitimos que entrem até em nossos corpos em uma noite de sexo casual, mas demoramos um tempo até liberarmos a entrada para o nosso âmago. E aí temos mulheres e homens “difíceis”, que demoram a dar certas liberdades a seus parceiros e agem como nômades, ou seja, demoram a se estabelecer em um terreno fixo. Ao mesmo tempo, são fáceis para pequenas “aventuras” – um curioso paradoxo. Queremos nos entregar de corpo e alma para alguém, mas o corpo é muito mais acessível, prazeroso, e fica o tempo todo exposto, mesmo que debaixo de uma camada de tecidos. A alma, por sua vez, é totalmente invisível, só pode ser imaginada por meio das impressões que formamos das pessoas.

O amor não acabou, mudou. Mudou para algo que alguns não se atreveriam a chamar de amor. Quem não estava preparado para ver a revolução sexual dos anos 60 não está preparado para ver uma revolução semelhante ocorrendo hoje.

Para acompanhar o texto, nada melhor que uma boa música, certo? É o assunto principal do blog, de qualquer maneira. Confiram, antes que o ECAD ou o SOPA venham incomodar:

Ao som de Boysetsfire.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s