Leituras de Veja São Paulo e sãopaulo

Após uma overdose de resenhas musicais de álbuns muito bons, o Sinfonia de Ideias sairá um pouco da música para falar de imprensa. No último fim de semana, centenas de milhares de assinantes do jornal Folha de S.Paulo e da revista Veja receberam as duas principais revistas sobre a Grande São Paulo: A revista sãopaulo e a Veja São Paulo. Quem assina ou de alguma outra forma tem acesso a ambas as publicações deve ter no mínimo levantado uma sobrancelha: as duas capas traziam exatamente o mesmo tema: a violência do Morumbi. Uma coincidência no mínimo estranha, para publicações que tratam de uma das maiores metrópoles do mundo, cujo índice de criminalidade, infelizmente, já não impressiona mais ninguém.

Qualquer semelhança é...

...mera coincidência?

As coincidências não param por aí: as matérias abrem com uma foto do mesmo evento: uma manifestação dos moradores por mais segurança, na qual parte da elite paulistana se reuniu ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para soltar centenas de balões brancos aos céus. Comovente, não? Até o título segue a mesma formatação: metade da frase em negrito.

O conteúdo das matérias também era essencialmente o mesmo: análise rápida do crescimento e do perfil demográfico e imobiliário do bairro, tabelas com estatísticas criminais, mapas e imagens, etc. Ambos os textos passam, resumidamente, a mesma ideia: o crescimento desordenado do Morumbi e as favelas localizadas ao lado (Paraisópolis e Real Parque) são a origem da criminalidade.

Uma grande diferença, apesar de tudo, marca as duas reportagens: um detalhe pequeno, porém essencial para se fazer um bom jornalismo, coisa que a Veja já não faz há décadas: as jornalistas Lívia Sampaio e Natália Zonta, da revista sãopaulo, tiveram a iniciativa elementar de procurar ouvir o que os moradores das favelas têm a dizer, mesmo que sua opinião tenha ficado apenas no final da matéria, sem foto nem nada. A dupla ainda concluiu a matéria mencionando os planos da prefeitura para mudar a realidade de quem vive nas favelas, que incluem urbanização e reorganização do sistema viário.

Já Arthur Guimarães, da Veja São Paulo, concluiu o texto ressaltando as ações da Polícia Militar, que realizou duas grandes operações na área durante as últimas semanas. As operações consistiam em reforço no policiamento da área, com mais homens, motos, viaturas e até um helicóptero. Foram feitas também milhares de revistas, apreensões e prisões. Este que vos escreve tenta acreditar que as revistas foram respeitosas e educadas e que os presos eram bandidos de fato, mas a realidade não me deixa ser ingênuo a este ponto. Mas isso já é assunto para outro post.

Ainda que fosse um acontecimento imediato de grande importância, como a queda de um avião ou um crime notável, seria natural que as revistas trouxessem as mesmas matérias de capa para seus leitores. Entretanto, causa estranheza que as duas maiores publicações voltadas à maior metrópole brasileira tenham sofrido um déficit de criatividade e originalidade a tal ponto.

Ao som de Malice Mizer.

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