Massacre do Realengo, o espetáculo. Estrelando: crianças e adolescentes.

Não é novidade que a mídia (especialmente a televisiva) tira um bom proveito de catástrofes e tragédias para garantir seus preciosíssimos pontos na audiência. Porém, o que se viu na cobertura do massacre do Realengo, protagonizado por Welington Menezes de Oliveira, foi um verdadeiro espetáculo forçado em cima da desgraça alheia. Lembrando que as vítimas do massacre, tanto as que foram mortas quanto as que testemunharam a execução dos próprios colegas, eram todas crianças e adolescentes, em sua maioria entre 10 e 17 anos. O espetáculo midiático já causa náuseas quando os personagens são adultos. Agora que são crianças da mais tenra idade, com baixos níveis de discernimento e de senso de preservação da própria imagem, o caso ganha uma dimensão maior de mau jornalismo. O jornalista Mauricio Stycer, do UOL, relata em seu blog o desespero de profissionais de imprensa atrás de um bom “teatrinho” para suas matérias. Há relatos de repórteres atrasados que pediram para entrevistados repetirem declarações dramáticas e equipes de emissoras protagonizando verdadeiros esquemas de Hollywood para conseguir a imagem perfeita. Sem falar nas perguntas infelizes e clichês que os repórteres sempre fazem, muitas vezes por obrigação: “como foi ver seus coleguinhas sendo mortos?”, “você está com medo de voltar às aulas?”, “o que você acha da segurança nas escolas do Brasil?”, e por aí vai.

Como todo acontecimento de alta magnetude, o massacre do Realengo serviu para trazer à tona uma série de questões: bullying, segurança nas escolas, desarmamento e até fanatismo religioso, já que Wellington mencionava Deus nos vídeos que gravou nos meses que antecederam a tragédia, meses esses que serviram para que ele arquitetasse seus planos com a frieza de um serial killer. A verdade é que essas questões não viraram pautas apenas por estarem relacionadas ao episódio. O que a mídia está querendo mesmo é encontrar um “culpado” pelo massacre. Com o suicídio de Wellington, o suspeito mais óbvio tem de ser riscado da lista de “vítimas” da imprensa. Sobram então os problemas associados a ele.

Bullying: vitimando até quem não tem nada a ver com isso
Muitos atribuem ao bullying que sofria na infância a culpa pelo seu comportamento homicida, a exemplo de outros casos semelhantes mundo afora, em que os atiradores são quase sempre alunos caçoados ou excluídos pelos colegas. E aí vem a questão das brincadeiras depreciativas sistemáticas praticadas em escolas (já há pessoas querendo torná-las crimes, após o tema cair na boca do povo (e da mídia), algo que já vinha acontecendo antes mesmo da tragédia). O “bullying” sempre existiu, de um jeito ou de outro: seja na forma de um grandalhão roubando o dinheiro do lanche do mais novo, como é retratado de maneira caricata nas novelas e nos filmes de Sessão da Tarde, seja na forma de uma comunidade do Orkut criada com o único propósito de denegrir a imagem alheia. E é agora que os educadores querem impor limites a um comportamento característico do ser humano, o mais tolo dos seres? Se é assim, então por que programas de “humor” podem continuar ridicularizando homossexuais, gordinhos e “nerds”? Não estariam essas produções praticando um bullying em cadeia nacional? Ou o argumento é que as novelas que antecedem tais programas são recheadas de cenas moralistas de respeito ao próximo? As autoridades estão ouvindo o recado insano, porém notável que o assassino deixou antes de perpetuar seu massacre? É preciso tratar desse câncer com menos superficialidade. Panfletos e vídeos educativos distribuídos para estudantes pouco ajudam a combater um mal inserido tão profundamente em nossa cultura.

No estilo “aeroportos dos Estados Unidos”
Depois da tragédia, hora de repensar a segurança nas escolas. Assim como a segurança em aeroportos dos EUA (e do mundo) foi reforçada após os atentados do dia 11 de setembro, aqui no Brasil já se pensa em rondas escolares mais intensas, mais câmeras e até vigias armados dentro das instituições de ensino. Quer dizer então que até dentro da escola, o “templo do saber”, as crianças serão obrigadas a conviver com objetos feitos para matar gente? Alguém me garante que as pistolas serão usadas apenas para proteger o futuro da nação?

Para ver o que os seguranças não podem ver, detectores de metal, propostos pelo deputado federal Sandro Mabel (PR-GO) antes mesmo do massacre. Significaria isso que agora seremos constrangidos em outros lugares além de aeroportos e bancos? E se uma cena como esta se repetir corriqueiramente em nossas escolas?

Um tiro que pode sair pela culatra
Até a questão do desarmamento foi desenterrada. Após um referendo em 2005 que calou os desarmamentistas com a mesma força que os antipetistas foram calados em 2002, 2006 e 2010, decidiu-se pelo não ao desarmamento. Entretanto, a insanidade de Wellington, que mostrou-se um exímio atirador no seu último dia de vida, ressuscitou o sonho daqueles que querem o fim da comercialização de armas de fogo para civis. Longe de ter a liberalidade dos Estados Unidos, onde pistolas, metralhadoras e espingardas são praticamente vendidas como acessórios, o Brasil prevê leis rígidas no que diz respeito ao porte de armas por civis: é preciso ter no mínimo 25 anos e é extremamente difícil obter permissão para andar armado fora de casa. Mas vejam só: mesmo tendo 2/3 da população americana e cerca de 8% do número de armas de fogo que há lá, o Brasil ainda apresenta 50% mais mortes por tiros do que a terra do Tio Sam.

Talvez porque boa parte das armas aqui produzidas são exportadas para nossos vizinhos sulamericanos e depois contrabandeadas de volta para cá, segundo reportagem do New York Times. Isso significa que produzimos armamento que, em tese, deveria ser usado por pessoas autorizadas, mas os produtos são trazidos de volta para de onde vieram e aí vendidos para qualquer um. Esse “qualquer um” pode ser um aspirante a bandido, o seu vizinho ou mesmo um maníaco que executa crianças (preferencialmente meninas) com tiros na cabeça e no tórax e depois se suicida. Desarmar a população resolveria isso? Ou o problema está na falta de fiscalização, nas fronteiras tão seguras quanto um preservativo rasgado? Bom, isso já é uma discussão para outro post que talvez nunca saia da condição de rascunho.

Para finalizar o texto, compartilho aqui o sucesso do Filter, “Hey Man, Nice Shot”, cuja letra de um modo ou de outro parece dialogar com o ocorrido, embora ela tenha sido baseada no suicídio público de R. Budd Dwyer. Apesar do título da canção sugerir o contrário, eu evidentemente não endosso atitudes como a de Wellington.

E que as câmeras, microfones e bloquinhos de anotações deixem em paz aqueles que, mesmo após passar por uma experiência tão traumatizante, precisam voltar a se concentrar naquilo que deveria ser a única preocupação de suas vidas: o estudo.

Ao som de Marisa Monte.

Nota: Esse texto é uma versão expandida de uma pequena nota escrita por mim para a Antena do Contraponto nº 71. Contraponto é o jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP.

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