Em defesa da antiga Turma da Mônica

Vários personagens da Turma da Mônica

Se você esqueceu o nome de algum personagem, corra para a banca mais próxima de você.

Não sei quanto a vocês, mas eu, apesar de já ter barba na cara, ainda leio revistinhas da Turma da Mônica. E não é só no banheiro ou no consultório do dentista. Ora, e daria para evitar? Passei minha infância toda lendo as historinhas.

Contudo, isso tem mudado ultimamente. Não estou mais conseguindo achar tanta graça nas historinhas mais recentes. A princípio, achei que o cruel senhor chamado tempo havia feito-me crescer e amadurecer, mas, ao ler os gibis antigos, percebi que não era isso. Algo aconteceu com a famosa dentucinha e seus amigos.

Nesses mais de 50 anos de existência, o universo criado pelo ex-repórter policial Mauricio de Sousa sofreu um processo de mudanças, tanto em estilo quanto em conteúdo. As primeiras histórias eram mais focadas em sequências de gags (piadas) baseadas em trabalhadas, tropeços, quedas e ideias de jerico, formando cenas de humor no estilo pastelão. De vez em quando, umas mensagens bonitinhas, de teor ambientalista ou pacifista. Com o tempo, esse tipo de humor foi dando mais espaço para comentários engraçadinhos, trocadilhos, inocência, etc. Nem por isso os gibis ficaram menos engraçados. Só que as cenas clássicas, como a do Cascão brincando no meio do lixo e encontrando objetos interessantes, ou da Magali devorando comida para dez pessoas em um quadrinho, ou mesmo de qualquer personagem enganando ou enlouquecendo bandidos armados com revólveres…todas elas estão quase em extinção.

É assim que o conceito de politicamente correto tem sido tortuosamente aplicado onde é conveniente. Ele não deixa as criancinhas lerem livros do Monteiro Lobato, mas permite que o Big Brother Brasil chegue à 11ª edição. Da mesma forma, ele não deixa mais o Cascão brincar com lixo, nem permite que crianças cozinhem ou mexam com furadeiras e veta armas de fogo nas mãos de bandidos e policiais.

Estive acompanhando a Turma da Mônica – Coleção Histórica, que traz as primeiras revistinhas da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali e do Chico Bento. Já está na 21ª edição. As historinhas são intercaladas com comentários do roteirista Paulo Beck, que contextualizam o enredo, explicam piadas e comentários anacrônicos para nós, apontam erros de impressão e às vezes creditam o roteiro. Por outro lado, eles vem sempre recheados de colocações infelizes como “Vejam só! Crianças mexendo com martelos!! Que absurdo!! Naquele tempo isso até era aceito, mas hoje em dia??? Jamais!!!”.

Caramba, alguém aqui começou a comer compulsivamente porque viu a Magali fazer igual? Alguma garota começou a correr atrás de quem lhe incomoda com um bichinho de pelúcia, como faz a Mônica? Alguém deixou de tomar banho inspirado no Cascão? Em caso afirmativo, espero que os pais tenham se encarregado da nobre missão de educá-los para discernir o real do imaginário. Os meus, pelo menos, o fizeram.

Concluo este post com um questionamento bem simples e direto: será que não temos problemas maiores para nos preocupar? A Turma da Mônica é um motivo para ter orgulho de ser brasileiro. Desejo profundamente que ninguém estrague isso.

Ao som de Dream Theater.

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