Resenha: Nando Reis combinou seu lado romântico com o roqueiro em “Sei”

Breve histórico: Nando Reis é geralmente apontado na mídia musical como um “ex-titã”, mas, com a carreira que construiu longe da banda paulistana, ele já não precisa mais se apoiar no sucesso do grupo que ajudou a fundar mas deixou em 2002. Virou um nome independente na música nacional, dono de um espaço que já começou a ser conquistado antes mesmo da saída dos Titãs, que foi precedida pelo lançamento de três álbuns.

Reprodução da capa do álbum

Acompanhado pela banda Os Infernais, Nando Reis lança em 2012 seu sétimo disco de estúdio, Sei. Um nome curto e grosso, condizente com a sonoridade de algumas faixas do álbum, que estão mais cruas e diretas do que em lançamentos anteriores. A pegada está nitidamente mais rock ‘n’ roll. Só que essa pegada tem outro nome além de Nando Reis: Jack Endino. Isso mesmo. O renomado produtor em cujo currículo constam nomes como Soundgarden, Nirvana e os próprios Titãs recebeu em Seattle o cantor e compositor paulista para a gravação do álbum.

Há outro detalhe que não pode ficar de fora da resenha: o álbum é independente, e Nando tirou proveito de sua autonomia de forma ousada: disponibilizou Sei na íntegra em seu site oficial e ainda pediu para os próprios fãs determinarem um preço para a obra. O valor final será calculado com base no julgamento dos internautas.

Por meio da Rádio UOL, Nando lançou sete das quinze faixas que compõem o álbum, sendo uma por dia. A primeira foi “Sei”, faixa-título que assumiu o papel de single do disco. Era uma escolha óbvia, por ser uma das típicas baladinhas românticas do cantor, apesar de que “Coração Vago”, a penúltima a ser divulgada, e várias outras faixas também não soam muito diferente. Em “Pré-Sal”, a segunda a ser liberada, o rock fica mais evidente, e a letra, sem refrão, mais complexa e misteriosa. “Back in Vânia” (praticamente uma regravação de “Back in Bahia”, de Gilberto Gil) traz temperos de blues e várias referências a locais do estado de São Paulo e do mundo, inclusive Ubatuba, cidade litorânea onde Nando gravou seu disco Luau MTV em 2007.

O romantismo volta em “Pra Quem Não Vem”, mas desta vez acompanhado de uma instrumentalização bem mais poderosa e trabalhada. Em “Eu & a Bispa”, há uma crítica quase explícita à Igreja Universal, evidenciada pela ênfase na palavra “universal” na segunda estrofe. Também pode ser uma crítica à gravadora Universal, que não quis renovar o contrato com o cantor antes de ele optar pela independência. A letra traz um momento repentino de sujeira no verso “Nem a punheta fode pelo pau que não fode a buceta”, o lado “na lata” de Nando Reis, que já fora trabalhado em canções antigas como “Isso Para Mim é Perfume”, do disco titânico Tudo ao Mesmo Tempo Agora. A última música a ser divulgada, “Lamento Realengo”, traz um momento raro e brando de negatividade ao trabalho (a começar pelo título), mas é dotada de um trabalho instrumental que não nos deixa esquecer das propriedades roqueiras do disco. Aqui, a banda conseguiu combinar com sabedoria o blues e o reggae, dois estilos que aparentemente resultariam em uma mistura heterogênea.

Se as faixas lançadas na UOL tinham como objetivo abrir o apetite musical dos fãs, elas conseguiram. Para matar a fome auditiva, as outras oito faixas estão aí, e podem ser divididas em dois grupos: O primeiro é o das baladinhas, formado por “PERSxPECTIVA”, “Luz Antiga”, “O Que Eu Só Vejo em Você” e “Declaração de Amor”, embora esta última seja bem menos melosa que suas colegas, talvez devido à emoção trazida pela sua pegada mais forte ao final. O outro grupo, formado por “Ternura & Afeto”, “Praça da Árvore” e “Sem Arrefecer”, traz letras mais complexas, profundas e trabalhadas. “Zer∅ Muit∅”, composta originalmente para o disco Não Tente Compreender, da cantora Mart’nália, tem alguns paralelos do amor com a matemática (“o amor não tem razão, sua raiz é uma nação sem ser lugar”), e faz ainda algumas possíveis referências à bissexualidade do cantor (“você não curte o que eu curto, o mesmo sexo, outro prazer”).

A presença de Jack Endino se faz evidente em alguns momentos e imperceptível em outras, o que é mais um ponto positivo para Sei, um trabalho nitidamente marcado por seu produtor, mas sem sombra de dúvidas fruto do trabalho de seu autor.

Nota = 8,5. Num disco que agradará a todos (românticos e roqueiros), Nando Reis deixou clara sua maturidade musical e os benefícios que um nome como Jack Endino podem trazer para o trabalho de um artista. Assim como Zé Ramalho, que lançou há pouco tempo seu mais recente álbum (resenhado neste blog), Nando mostrou também que tornar-se independente pode trazer certa liberdade ao músico, permitindo a ele lançar mão de recursos impensáveis dentro de uma gravadora, como pedir que os fãs determinem o preço do disco. Um bom lançamento de um músico bom.

Abaixo, uma versão da faixa “Ternura & Afeto” tocada no estúdio pela banda:

Dez combinações vocais que deram muito certo no rock/metal

Este post foi concebido mentalmente há muitos meses, mas sempre tive preguiça de terminá-lo. Quando o mês de julho foi se aproximando, resolvi que ia publicá-lo no dia 13/7, ou seja, Dia Mundial do Rock. Antes de mais nada, devo avisar que ele vai entrar em conflito com o meu post do mesmo tema do ano passado, pois no final do mesmo, eu disse que não havia sugerido bandas de heavy metal por acreditar que o estilo já é outra coisa além do rock. Contudo, já que os dois muitas vezes caminham lado a lado, resolvi ampliar o universo musical neste post aqui.

Não faltaram na história, felizmente, boas bandas de rock ou metal. A maioria delas traz sempre um vocalista e, às vezes, um ou mais backing vocalistas. Só que existem muitos grupos que se consagraram por meio de duas ou mais vozes cantando na mesma formação. Abaixo, seguem dez exemplos (na maioria duetos) de combinações tão harmoniosas quanto queijo e goiabada, arroz e feijão, cinema e pipoca, todos selecionados pelo Sinfonia de Ideias.

Nota: A lista foi montada em uma ordem aleatória. Ela não considera as seleções abaixo melhores do que qualquer outra, são apenas alguns exemplos que o autor considerou importantes e/ou bons.

1 – Simon & Garfunkel
Uma das duplas vocais mais famosas de todos os tempos e pioneiros do folk rock. É a melhor escolha para abrir esta lista, pois ficaram famosos justamente pela harmonização dos vocais, que fica evidente nesta apresentação recente ao vivo:

2 – Tony Scalzo & Miles Zuniga
São desconhecidos, mas a combinação soa tão bem quanto as mais famosas. Juntos com o baterista Joey Shuffield, eles formam o trio estadunidense Fastball, que gravou alguns álbuns nos anos 90 e 2000, todos com a mesma formação. A combinação de vozes e a instrumentalização tem uma certa influência dos Beatles. Esta apresentação não está com a melhor das qualidades, mas mostra que a harmonia também funciona bem ao vivo:

3 – Paul McCartney & John Lennon
E falando nos garotos de Liverpool…não se pode deixá-los de fora de nenhuma lista que fale de rock, certo? Os “fab four” tinham como uma das principais características o vocal dividido entre todos os integrantes, embora a maior parte ficasse a cargo de John e/ou Paul, com George Harrison e Ringo Starr ocasionalmente dando algumas contribuições como voz principal. O exemplo abaixo tem a parceria musical mais bem-sucedida de todos os tempos dividindo o microfone – literalmente.

4 – Serj Tankian & Daron Malakian
Eles são metade de um dos quartetos mais famoso da atualidade, o System of a Down, que passou pelo Brasil no ano passado. Dividem os vocais e, às vezes, as guitarras/violões, formando uma dupla de peso no cenário atual do heavy metal. Isso fica claro nesta gravação, que tem qualidade média, mas capta bem os motivos que os fazem merecer um lugar nesta lista.

5 – David Gilmour & Roger Waters
Se os discos do Pink Floyd tinham como uma de suas características os vocais divididos entre o baixista Roger Waters e o guitarrista David Gilmour, com o tecladista Richard Wright dando raras contribuições, o relacionamento entre os dois fora dos palcos (durante e após a carreira com o grupo) foi marcado por tensões. Mas como isso não é o foco deste post, vamos ao que interessa: Os vocais de uma das bandas mais importantes do século XX e da história do rock (especialmente o progressivo e o psicodélico).

6 – Chris Demakes & Roger Manganelli
Nem sempre esta dupla canta ao mesmo tempo, mas mesmo assim vale incluí-la aqui. Além de cuidar dos vocais, eles também tocam baixo (Roger) e guitarra (Chris) no quinteto estadunidense de ska punk Less Than Jake, que é complementado por um baterista, um saxofonista e um trompetista. Uma curiosidade: Roger nasceu em Porto Alegre! Abaixo um exemplo em que os dois cantam na mesma música, embora Roger cuide da maior parte.

7 – Arnaldo Antunes & Marisa Monte
Uma das duas vozes graves mais emblemáticas do Brasil (a outra sendo Zé Ramalho, cujo álbum mais recente também foi resenhado neste blog), Arnaldo Antunes teve uma carreira marcada por colaborações com Marisa Monte, que, com sua voz doce, contrasta com o vozeirão do ex-titã. Esta versão não é ao vivo, mas traz um contraste marcante.

8 – van Canto

Taí uma banda que dificilmente deixará de ser conhecida por ter mais de um vocalista na formação – afinal, cinco dos seis membros deste conjunto alemão cantam, sendo o baterista o único a ficar mudo. Mas só dois cantam “de verdade”. Os outros três fazem os riffs e solos de guitarra, além das linhas de baixo, que são tocadas, ou melhor, cantadas por outro brasileiro que faz sucesso com estrangeiros: Ingo “Ike” Sterzinger. Como isso soa? Aperte o play neste cover do Metallica e descubra!

9 – Titãs
A melhor banda de todos os tempos da última semana já chegou a ter nada menos que seis vocalistas na mesma formação (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Branco Mello, Paulo Miklos, Ciro Pessoa e Nando Reis). Hoje, só Sérgio, Branco e Paulo ainda estão no grupo. Cada vocalista ficou registrado na história dos Titãs com pelo menos alguns sucessos radiofônicos, com exceção de Ciro Pessoa, que saiu da banda antes mesmo de lançarem seu primeiro álbum, apesar da obra ter trazido algumas composições do cantor, dentre as quais se destaca “Sonífera Ilha”, primeiro sucesso deles, que foi escrita por mais quatro pessoas. Difícil é achar uma música em que todos apareçam. Fiquemos com esta apresentação ao vivo, numa época já sem Nando Reis e Arnaldo Antunes.

10 – Nightwish
Desde a entrada de Marco Hietala no maior representante do metal sinfônico da atualidade, o grupo passou a contar com dois vocalistas na formação. Mas o cantor, que também é o baixista do quinteto, só começou a usar mais a sua voz nos álbuns da banda com a nova vocalista Anette Olzon, a saber, Dark Passion Play e Imaginaerum (resenhado neste blog). Desde então, o Nightwish tem combinado com sabedoria os vocais agressivos e rasgados de Marco com o canto belo e suave de Anette, sob o guarda-chuva do talento indiscutível do tecladista Tuomas Holopainen para compor. O exemplo abaixo não prima pela qualidade, mas é só para conferir que o nível não diminui ao vivo.

Ao som de Helloween.

Resenha: “Mylo Xyloto” é denso e positivo, duas marcas do Coldplay

Breve histórico: Coldplay é um daqueles grupos que o autor deste blog considera como “únicos” – palavra que aqui significa “nunca ouvi nada que soasse nem sequer próximo disso”. Formado em 1996 por Chris Martin (vocais, teclados, guitarra) e Jonny Buckland (guitarra) e reforçados mais tarde por Guy Berryman (baixo) e Will Champion (bateria), o grupo já ganhou diversos prêmios, vendeu milhões, virou freguês das principais paradas musicas do mundo e deixou sua marca na história da música contemporânea.

Reprodução da capa do álbum (© Parlophone)

Mylo Xyloto é um álbum carregado de energias positivas. É uma afirmação que soa brega e cafona, mas é real: As músicas são alegres, harmoniosas e parecem proporcionar uma sensação de bem-estar para quem as ouve (algo que o Coldplay já consegue fazer há tempos, diga-se de passagem). Na verdade, nem é preciso ouvir o álbum para saber que será uma experiência positiva: o título de algumas faixas (“A Hopeful Transmision”, “Up With the Birds”, “Don’t Let It Break Your Heart” e outras) já são uma dica para o teor do álbum.

O quinto álbum do Coldplay apresenta uma tracklist marcada tanto por canções alegres e cativantes (a maioria), como “Hurts Like Heaven”, “Charlie Brown” e o single “Every Teardrop is a Waterfall”; quanto composições mais “paradas” e simples, como “Up Against the World”, “U.F.O” e “Up in Flames”. Há também algumas surpresas, como “Major Minus”, que abre com um riff relativamente “tenso” no violão; e “Princess of China”, com a participação da cantora pop barbadiana Rihanna.

Escutar Mylo Xyloto é uma experiência cheia de cores e mais altos do que baixos. Quem assistiu à banda no Rock in Rio teve a oportunidade de ver o piano colorido de Chris Martin e as pichações do vocalista em painéis transparentes colocados no Palco Mundo; um prelúdio ao humor do álbum.

Nota = 9,0. Passando por cima de críticas infelizes que insinuam afirmam que o grupo tenta copiar o U2 e explorando novos sons, o Coldplay mostra em Mylo Xyloto uma banda independente, criativa e inovadora. Destaque para o primeiro single, “Every Teardrop is a Waterfall”, lançado em junho e introduzido por um riff que beira o pop, tirado do sucesso “I Go to Rio”, de Peter Allen e Adrienne Anderson; a participação inusitada de Rihanna em “Princess of China”; a distinta “Major Minus”; e a bela “Paradise”, que ganhou um vídeo tão bonito quanto (veja abaixo).

Abaixo, o vídeo de “Paradise”: