Resenha: “Omertá” surpreende logo de cara, algo difícil no metal atual

Breve histórico: Adrenaline Mob é um supergrupo de heavy metal fundado pelo baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater), o vocalista Russell Allen (Symphony X, Star One) e o guitarrista Mike Orlando (Bumblefoot, Zakk Wylde). Foram brevemente complementados pelo baixista Paul DiLeo e pelo segundo guitarrista Rich Ward, mas ambos acabaram saindo antes do lançamento do primeiro álbum, Omertá. Apenas o baixista foi substituído – John Moyer (Disturbed) assumiu as quatro cordas há um mês.

Reprodução da capa do álbum (© ESL Music)

Adrenaline Mob é diferente daquilo que os seus integrantes fizeram em suas (vastas) carreiras. E é isso que torna o projeto interessante – ninguém estava esperando por uma sonoridade como essa quando a banda começou a ser anunciada. Até porque seus membros fundadores são conhecidos por fazer um som um pouco mais limpo, ainda que igualmente pesado. Omertá, disco de estreia do quarteto — originalmente quinteto — mescla metal alternativo, industrial, progressivo e tem até alguns toques de thrash e nu metal.

Difícil dizer qual dos músicos está se destacando mais aqui, mas a voz poderosíssima de Russell talvez seja a primeira coisa a chamar a atenção do ouvinte, mesmo para quem já acompanha seu trabalho no Symphony X. Os riffs fortes e marcantes de Mike Orlando, aliados às batidas firmes de Mike Portnoy ditam o ritmo do álbum. Além dos riffs, Mike Orlando trouxe solos bastante técnicos e interessantes, que dão certa solidez ao trabalho. Outra característica notória desta obra é soar constante, sem grandes mudanças entre uma faixa e outra, e mesmo assim não enjoar.

Basicamente, Omertá pode ser dividido entre séries de faixas destruidoras, das quais destacam-se “Undaunted”, “Hit the Wall”, “Feelin’ Me” e “Down to the Floor” e alguns “respiros” posicionados entre elas: “All on the Line” e “Angel Sky”, duas belas baladas, e “Come Undone”, cover do Duran Duran, que conta com a participação da vocalista Lzzy Hale, dona de uma bela voz. O curioso da faixa é que Lzzy parece cantar com mais agressividade que Russell, que limitou-se a cantar versos de maneira mais “limpa”, ainda que com notável emoção.

Nota = 8,0. Surpreende logo na primeira escutada, logo na primeira faixa, algo raro nos lançamentos de heavy metal atualmente, o que torna este álbum uma obra que entraria facilmente numa lista de “melhores de 2012″. Já foi dito, mas não custa repetir: não espere um “Dream Theater encontra Symphony X” com este álbum só porque membros das duas bandas estão aí. Espere algo menos ambicioso, mas igualmente primoroso.

Abaixo, o vídeo da faixa de abertura, “Undaunted”:

Resenha: “A Dramatic Turn of Events” não empolga, mas é exemplo de bom trabalho do Dream Theater

Breve histórico: Com mais de 25 anos de carreira, o Dream Theater estabeleceu-se como um dos grupos de metal mais influentes e bem sucedidos da atualidade, sendo o principal nome do metal progressivo. Formada por músicos de talento acima da média, a banda conquistou seu público com canções que variam entre o leve ao agressivo, sempre com muita técnica.

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Sempre que um conjunto musical troca um de seus membros, cria-se uma certa especulação em torno do futuro deste grupo – especialmente quando o membro é um dos fundadores. Mike Portnoy, baterista que criou o Dream Theater com o baixista John Myung e o guitarrista John Petrucci, deixou seus colegas em 2010, sendo substituído no ano seguinte pelo talentoso Mike Mangini. O processo de seleção do novo músico foi um verdadeiro espetáculo registrado como documentário em formato de reality show – algo que já foi objeto de crítica deste blog. O novo álbum já era algo esperado, posto que o motivo da saída de Portnoy foi justamente o fato de ele querer uma pausa, e o resto da banda querer continuar trabalhando. Trocado o baterista, o grupo se enfurnou no Cove City Sound Studios, nos EUA, e produziu seu décimo primeiro álbum de estúdio.

O resultado foi uma produção típica do Dream Theater. Nada de baixo nível, é claro, mas facilmente ofuscável por outros álbuns mais interessantes, como Images and Words, Metropolis, Pt. 2: Scenes from a Memory, Octavarium, entre outros. A recepção deste álbum provavelmente será diversa: uns dirão que Mangini substitui Portnoy sem problemas, outros dirão que o Dream Theater mudou pra pior. Um “racha” entre fãs previsível e semelhante ao ocorrido com o Stratovarius pós-Timo Tolkki ou o Nightwish pós-Tarja Turunen. Mas a verdade é que o som da bateria é essencialmente o mesmo. O próprio grupo já havia demonstrado em seu documentário desinteresse por bateristas que tentassem adicionar o seu toque pessoal. Eles queriam alguém que tocasse as músicas do jeito que Portnoy tocava. E assim fez Mike Mangini.

A faixa de abertura e primeiro single do álbum é “On the Backs of Angels”, primeira canção com o novo baterista a ser divulgada. Não empolga muito, mas ainda assim convida o ouvinte a experimentar mais do álbum. É interessante notar que os primeiros versos cantados pelo vocalista James LaBrie lembram o estilo de Andrew McDermott, do Threshold, mais precisamente no disco Dead Reckoning. A segunda, “Build Me Up, Break Me Down”, tem uma introdução interessante e uns toques eletrônicos, que mostram alguns elementos novos no som da banda. As duas primeira faixas, convém observar, são marcadas por uma orquestração que acompanha os solos e os arranjos sofisticados de Jordan Rudess. Mas o tecladista ainda tem muito espaço para mostrar por que é considerado um dos melhores do mundo em “Lost Not Forgotten”, terceira do disco e uma das que passam dos 10 minutos.

“This is the Life” é uma das baladas do álbum: lenta e poderosa. Tem um belo solo de John Petrucci. A posição da faixa talvez não tenha sido por mero acaso: ela precede a mais agressiva do disco, “Bridges in the Sky”, que traz o peso de Black Clouds & Silver Linings, álbum anterior do grupo. A faixa seguinte, “Outcry”, vem com o mesmo peso e traz um pouco mais de técnica. A curta “Far from Heaven” foi escrita pelo vocalista James LaBrie, que é acompanhado apenas por piano e cordas – um respiro após mais de uma hora de muito peso que precede a faixa mais longa do disco, “Breaking All Illusions”. Fechando o álbum, a curta e leve “Beneath the Surface”, sem bateria: só cordas, voz, teclados e violão. Uma boa escolha para terminar este disco.

Nota = 7,5. Como bem disse o crítico musical Rich Wilson, A Dramatic Turn of Events não agrada de imediato e “são necessárias várias escutadas para compreender totalmente o que a banda conseguiu aqui”. De fato, o álbum não impressiona muito, para quem já ouviu Black Clouds & Silver Linings e outros álbuns citados acima, mas é preciso coragem para apontar um trabalho ruim de um grupo do naipe do Dream Theater, e este com certeza não o é. Pelo contrário, é uma obra bem produzida, equilibrada e de altíssima qualidade. Só não causou o impacto que alguns esperavam, para o bem ou para o mal.

Abaixo, o vídeo de “On the Backs of Angels”:

A novela “Dream Theater e o baterista”: muitas “images” para poucas “words”

Como alguns fãs de música sabem, o Dream Theater, banda estadunidense de metal progressivo, lançou recentemente uma série de vídeos onde mostra os bastidores do processo de escolha do novo baterista da banda, que entrou após a saída de Mike Portnoy. A trilogia mostra a performance de cada um dos sete bateristas selecionados para disputarem as basquetas de uma das maiores bandas da atualidade. Mas o espetáculo promovido pelo grupo não condisse com a sua maturidade musical.

Em 8 de setembro de 2010, o baterista Mike Portnoy anunciou sua saída da banda que ajudou a fundar nos anos 80. O anúncio veio em meio a um bom período para o grupo, que havia acabado de fazer uma turnê para a divulgação de seu último álbum, Black Clouds & Silver Linings, e outra com a companhia de ninguém mais ninguém menos que o legendário grupo Iron Maiden.

Desde então, houve muita especulação sobre qual seria o próximo baterista, sobre o futuro da banda e sobre o futuro do próprio membro dissidente. Mike continuou tocando com o Avenged Sevenfold, como já vinha fazendo há alguns meses após a morte do baterista deles, The Rev, mas a relação com o grupo não durou mais do que alguns meses. Hoje, Mike trabalha em dois projetos ainda não muito detalhados.

E quanto ao Dream Theater, maior representante da vertente do metal que une as melodias e a complexidade do rock progressivo com o peso e a agressividade do heavy metal, restou a oportunidade para promover um verdadeiro reality show, como se uma banda desse naipe precisasse. Basta assistir a um dos três vídeos do documentário sobre o novo baterista para ver como os músicos do grupo estão em um nível de técnica e musicalidade que os deixa acima da necessidade de promoção. Eles já venderam milhões. Mesmo a alta habilidade dos músicos não justificava tamanha produção. Lugar de músico se mostrar é no palco.

Para decidir qual baterista substituiria Mike Portnoy, os quatro membros do Dream Theater (James LaBrie nos vocais, John Petrucci na guitarra, John Myung no baixo e Jordan Rudess nos teclados) selecionaram sete talentosos bateristas do mundo todo:

  • Aquiles Priester, ex-Angra e Paul Di´Anno, atual Hangar.
  • Peter Wildoer, do Darkane.
  • Marco Minnemann, ex-Kreator, ex-Necrophagist, ex-Ephel Duath e já tocou Joe Satriani
  • Virgil Donati, do Planet X e do Seven The Hardway.
  • Derek Roddy, do Hate Eternal, Nile e Today is The Day
  • Mike Mangini, ex-Steve Vai, ex-Extreme e ex-Annihilator.
  • Thomas Lang, ex-John Wetton, tocou com Roberto Fripp e Glenn Hughes.

Dos sete, os que mais agradaram ao Dream Theater foram Peter Wildoer, Marco Minnemann e Mike Mangini. Aquiles Priester, único brasileiro do seleto grupo, foi, infelizmente, o “menos melhor” dos sete (pois dizer “pior” para qualquer um desses habilidosos instrumentistas é beirar a ignorância). No final, escolheram Mike Mangini, que realmente surpreendeu aos seus futuros colegas de banda e aos fãs também. Passou por todas as fases do teste deixando boquiabertos os que o assistiram, fases que incluíam tocar três canções do grupo (“A Nightmare to Remember, “Dance of Eternity” e “The Spirit Carries on”), além de improvisar batidas para riffs-surpresas e tempos complexos.

No decorrer dos episódios, vários comentários repetitivos sobre a necessidade do baterista estar em sintonia com a banda, sobre a surpresa da saída de Portnoy, e sobre o entusiasmo para com o próximo álbum que está por vir. Em outras palavras, um festival de imagens com poucas palavras relevantes para apoiá-las.

Da esquerda para a direita: John Myung, Jordan Rudess, James LaBrie, Mike Mangini e John Petrucci.

A escolha de Mike Mengini foi a melhor dentre os sete candidatos, mas não justificou tamanho circo. Uma banda do nível do Dream Theater não precisa, de forma alguma, fazer um show desses, expondo a saída de Mike Portnoy como sendo algo tão público assim. Porém, que isso ajudou a expor o nome do grupo na mídia musical, com certeza ajudou.

Veja abaixo o episódio com a audição de Mike Mangini (que vai de 10:41 até o final do vídeo).