Resenha: Avalon faz estreia razoável com “The Land of New Hope”, mas precisa aprender com erros

Breve histórico: Com um time de primeira categoria, Avalon é uma metal opera e a mais nova empreitada de Timo Tolkki, guitarrista finlandês famoso pelos trabalhos com o Stratovarius, Revolution Renaissance e Symfonia (cujo único álbum foi resenhado neste blog).

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

O anúncio do projeto Avalon por parte de Timo gerou reações adversas. Muitos ficaram empolgados com a novidade, especialmente após verem a lista de músicos convidados, que só inclui nomes de peso: os vocalistas Elize Ryd (Amaranthe), Rob Rock (Impellitteri), Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob, Star One), Michael Kiske (ex-Helloween, Unisonic), Sharon den Adel (Within Temptation) e Tony Kakko (Sonata Arctica, Northern Kings); os tecladistas Jens Johansson (Stratovarius), Mikko Härkin (ex-Sonata Artcica, Cain’s Offering, ex-Symfonia) e Derek Sherinian (ex-Dream Theater, ex-Black Country Communion); e o baterista Alex Horlzwarth (Rhapsody of Fire). Timo ficou a cargo das guitarras, do baixo e da produção.

Outros fãs foram mais frios. Alguns ironizaram as similaridades com Avantasia, metal opera mais antiga que Avalon na qual Timo já trabalhou. Na verdade, o próprio Tobias Sammet, mentor do Avantasia, recebeu as notícias com sarcasmo: “Uau, alguém é extraordinariamente criativo aqui: o nome, os convidados, o tempo… Que coincidência engraçada, não é?!” Mais tarde, ele diminuiu o tom e afirmou: “Houve um monte de metal operas por aí, e eu tenho que lidar com isso. [...] Eu desejo sorte a ele [Timo Tolkki]“. Outra preocupação dos fãs foi com a instabilidade mental do próprio Timo. Ele é conhecido por tomar decisões radicais e depois voltar atrás nelas. Enfim, este projeto, ele prometeu e cumpriu.

O álbum de estreia, The Land of New Hope, traz uma história pós-apocalíptica. Em 2055, a Terra é um local inóspito após ter sido devastada por terremotos, incêndios e tsunamis. Um pequeno grupo de sobreviventes parte, então, em busca de uma terra sagrada conhecida como “A Terra da Nova Esperança”. Na jornada, são guiados por uma vidente que os adverte que apenas os de coração puro podem passar pelo guardião que protege a entrada do local. É um enredo bastante clichê, é verdade. As letras também não têm lá uma dose generosa de originalidade. Algumas, aliás, lembram muito os trechos mais apocalípticos e dramáticos do álbum 01011001, do Ayreon, outra notória metal opera.

Musicalmente falando, o disco tem grandes momentos, mas nem tudo deu certo. Se for analisado isoladamente (isto é, como um disco comum), é um bom trabalho. Mas não é um disco comum. É um álbum de Timo Tolkki e dez músicos de qualidade e reconhecimento inquestionáveis. Logo, espera-se bastante coisa deles, e o julgamento deve ser rígido.

Comecemos pelo mentor: Timo Tolkki parece ofuscado pelos próprios convidados. Na metade das faixas, os riffs não são marcantes como costumavam ser, e a guitarra parece até um pouco distante, mal sustentando as faixas. Na outra metade, temos o Timo “de verdade”, com riffs que automaticamente fazem sua cabeça balançar, e os solos inconfundíveis do músico. Mas por que não temos isso em todas?

Dos outros quatro instrumentistas, três são tecladistas consagrados: Derek Sherinian, Jens Johansson e Mikko Härkin. O resultado, portanto, foi estupendo, certo? Errado. Estou até agora procurando os três no disco – só fui encontrar dois deles no meio da oitava faixa, “To the Edge of the Earth”, onde há um breve momento “cale a boca, resenhista!”, em que Jens, Derek e Timo solam um em seguida do outro, criando o ponto mais empolgante do disco. Mas ficou por isso mesmo a performance deles. Em termos de teclas, tudo o que se ouve no resto do disco, basicamente, são orquestrações, riffs simples de piano e sons sintéticos para dar um clima aqui e ali. São coisas que o próprio Timo poderia fazer sozinho, já que ele também é tecladista. O mentor do projeto não usou nem 10% do talento deste trio de lendas das teclas. Uma pena.

Quanto aos vocalistas, o trio Bob Rock, Russell Allen e Elize Ryd canta na maior parte das músicas e acaba tendo mais destaque do que os outros, portanto. Russell, como sempre, faz um bom trabalho e mostra por que tantos projetos querem a sua voz. Mas não dá para dizer que este é o melhor trabalho de sua carreira. A maioria dos discos do Symphony X, do Star One ou do Adrenaline Mob traz um Russell Allen mais inspirado e diverso. Rob teve mais oportunidade de mostrar seu talento, pois ganhou o dobro de faixas que Russell, inclusive duas nas quais ele canta sozinho. Dos vocalistas masculinos, foi o que melhor se saiu.

Elize Ryd é a cara mais nova do grupo, mas acabou roubando a cena. Dá para dizer que foi a melhor voz do disco. Seu cantar é forte e penetra fundo nos ouvidos, mas ela também sabe ser mais serena e moderada. Um de seus pontos altos foi “Shine” – pudera, aqui ela divide os vocais com Sharon den Adel, uma das maiores vocalistas do metal atualmente, que faz aqui sua única participação. Enquanto Elize se esgoela um pouquinho, Sharon mantém um tom mais sereno nos poucos versos que cantou, e a mistura deu certo – mas se uma cantora tão qualificada e versátil como a Sharon cantasse sozinha e desse jeito, seria mais um exemplo do que não se fazer com um convidado.

Tony Kakko deixa sua marca em uma única faixa, “We Will Find a Way”, que é uma das melhores do álbum, diga-se de passagem. É nela que Timo mostra um pouco mais de vontade na hora de fazer riffs. Já Michael Kiske, cantou apenas em uma faixa. Uma injustiça, já que ele merece sempre ter destaque em qualquer metal opera (não por um acaso, ele canta em todos os discos de estúdio do Avantasia, em boa parte das faixas). Ao menos, ele ganhou só para si a faixa mais longa, que serve de encerramento e leva o nome do álbum. Fez um bom trabalho, mas no mais recente disco do Avantasia ele demonstrou mais emoção.

Com exceção da abertura “Avalanche Anthem”, o começo de The Land of New Hope é sonolento. Melhora no meio com “We Will Find a Way”, “Shine” e “To the Edge of the Earth” e fecha com uma faixa boa, “The Land of New Hope”, mas não dá para se falar em chave de ouro aqui.

Nota = 6,5. Que fique bem claro: o disco vale a pena ser comprado, ouvido, guardado. Mas Timo Tolkki cometeu um erro aqui: alguns convidados sobraram. De que adianta chamar uma vocalista do nível de Sharon den Adel para ela cantar míseros seis versos sem muita emoção? E os tecladistas, que foram diluídos em um líquido quase sem sabor? Como Timo informou que The Land of New Hope seria parte de uma trilogia (a parte final, para ser preciso), então podemos esperar dois futuros discos nos quais estas deficiências talvez tenham sido superadas – isto é, se ele não tomar mais uma decisão abrupta e cancelar isto também. De Timo Tolkki, é preciso esperar qualquer coisa – eu falo sério.

Abaixo, a faixa “To the Edge of the Earth”:

Resenha: Airbourne começa a se emancipar do som do AC/DC em “Black Dog Barking”

Breve histórico: Famoso por “imitar” o som do AC/DC, apesar de ter influências de outras bandas como Def Leppard, este quarteto australiano vem conquistando admiradores com seu hard rock agressivo e direto. Tiveram ajuda da indústria dos games para ampliar a legião de fãs: suas músicas figuram nas trilhas sonoras de jogos como Guitar Hero, Skate e Need for Speed.

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Reprodução da capa do álbum (© Roadrunner Records)

Três anos após seu segundo disco de estúdio, o Airbourne retorna com Black Dog Barking. Segundo eles, o trabalho foi feito com muito esforço por parte da banda e do pessoal de estúdio. E isso não é difícil de perceber: o som está bastante polido, os instrumentos estão perfeitamente equalizados, enfim, não há nada aqui que deixe a desejar.

Quando à música, nada de novo: o bom e velho hard rock clássico. Contudo, algo chama a atenção aqui: o quarteto parece querer se distanciar um pouco do som do AC/DC. Não que a sonoridade não continue sendo parecida. Mas são notáveis algumas doses diminutas de outros sons aqui e ali. Em “Back in the Game”, por exemplo, é possível perceber um pouquinho de glam. Já em “Hungry”, a abertura traz uns toques curiosos de música espanhola. É assim, de pouco em pouco, que a banda começa a criar um som cada vez mais particular, sem deixar de escancarar suas influências.

Afora isso, não há muito o que comentar sobre o álbum. Com pouco menos de 35 minutos de duração (sem contar faixas-bônus), é um trabalho curto; na verdade, é o mais compacto dos três discos da banda. Mas não deixa der ser um bom lançamento. O grupo mais uma vez soube combinar riffs nervosos, solos respeitáveis e vocais rasgados numa música que deve agradar aos fãs, conquistar alguns novos e conseguir algum sucesso nas paradas.

Nota = 8,0. Agradável, Black Dog Barking é o terceiro golpe do Airbourne na cara dos que decretaram prematuramente a morte do rock ‘n’ roll. O autor da resenha recomenda o mesmo que a própria banda indicou: abra uma cerveja, aumente o volume e divirta-se com as dez faixas do disco.

Abaixo, o single “Live it Up”:

Resenha: Tony Scalzo faz uma boa estreia solo com “My Favorite Year”

Breve histórico: Tony Scalzo é um havaiano “naturalizado” no Texas que desde 1994 canta, toca baixo, teclado, violão e guitarra no trio de pop rock Fastball. Enquanto a banda não lança nada novo desde 2009, ele andou ocupado fazendo shows por aí e preparando seu primeiro disco solo, que chega em maio pela East Liberty Records.

Reprodução da capa do álbum ((© East Liberty Records)

Reprodução da capa do álbum ((© East Liberty Records)

Em My Favorite Year, Tony fez majoritariamente músicas em primeira pessoa – o álbum soa mais como uma mensagem pessoal do que uma reles coletânea de músicas criadas sem os colegas de banda. O disco foi feito com a ajuda prévia dos fãs: Tony iniciou uma campanha de arrecadação de fundos no estilo PledgeMusic para conseguir dinheiro o suficiente para gravar o trabalho. Apesar disso, quando o álbum ficou pronto, ele ainda cobrou pelo seu download, e um preço até meio salgadinho: 15 dólares. Para efeito de comparação, o mais recente disco do quarteto australiano de hard rock Airbourne está custando 12 dólares na pré-venda do iTunes, e ainda tem uma faixa a mais.

Caro ou não, o álbum vale a pena. Ele desvia do som tradicional do Fastball, mas o fã atento não demorará a perceber os toques de Tony. É um trabalho bem leve, que flutua entre o indie, o alternativo, o pop, o southern, o blues e mais um tanto de subgêneros populares no Texas. Logo, agradará a ouvidos diversos, apesar de que provavelmente não alcançará nenhuma parada nem será muito divulgado por aí.

Vale destacar que, apesar de ser um multi-instrumentista, Tony não trabalhou sozinho no álbum. Além dele, outros 14 músicos ajudaram com seus talentos, a maioria não muito conhecida. Uma das exceções é Matt Hubbard, famoso pelos trabalhos com Willie Nelson e os 7 Walkers. O músico, que já tocou gaita no quarto disco do Fastball, Keep Your Wig On, contribui aqui na faixa “Free World” tocando trombone e harmônio (uma espécie de órgão). A outra exceção é Ian McLagan, que já trabalhou com nomes como Rod Stewart, The Rolling Stones e Izzy Stradlin, entre outros. No disco, ele participa de “Forever Girl”, tocando um belo arranjo de órgão.

Miles Zuniga, colega de banda com quem Tony divide as guitarras e os vocais do Fastaball, também deu as caras no disco, contribuindo com a composição de “Ziggy” e “Free World”. Além destas, só duas outras faixas são feitas parcerias (que incluem nomes como Chris Stills e Britt Daniel). Todas as outras são assinadas apenas por Tony.

Há músicas para todos os gostos aqui; os destaques ficam por conta da abertura “Love Lost”, “Halfway Girl”, “Reality”, “Bed I Made” e o encerramento “Last Word”. Um álbum para se ouvir na estrada, no jardim, no metrô, onde se quiser. Para comprar a versão digital do disco, é só acessar a loja oficial do músico.

Nota = 8,0. Por mais estranho que possa parecer, My Favorite Year soa ao mesmo tempo simples e sofisticado. Simples pela pessoalidade, pela duração das faixas e pelo som digerível e acessível a qualquer ouvinte. Sofisticado pela variedade de estilos e pela riqueza trazida pelos convidados.

Como não há clipes para as músicas do álbum ainda, fique com esta versão ao vivo de “Ziggy”, após uma rápida entrevista com o músico: