Resenha: Helloween lança seu melhor álbum em anos com “Straight Out of Hell”

O que falar do Helloween? Banda líder no power metal, estilo do qual são considerados pioneiros por boa parte da crítica, e que ajudaram a moldar com Blind Guardian e Stratovarius, dois outros grupos power dos anos 80. Enquanto alguns “fãs” crescem rugas em discussões ultrapassadas do tipo “Michael Kiske x Andi Deris” (respectivamente, o antigo e o atual vocalista da banda), o Helloween segue evoluindo e mantendo seu posto de reis no segmento do power.

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music)

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music Entertainment)

Straight Out of Hell significa “direto do inferno” – um nome de respeito para um álbum, que faz qualquer um ter mais vontade de ouvi-lo para ver se o som realmente veio lá de baixo. A verdade é que ele não é nada “infernal”, por assim dizer – o sombrio 7 Sinners é que parecia ter vindo das profundezas. Neste álbum, a banda deu mais cores a sua música, voltando ao som mais positivo que fazia nos anos 2000.

Cada música de Straight Out of Hell tem um clima, um charme e uma história, conforme a banda evidenciou na série de vídeos curtos que lançou em sua página oficial do Facebook, falando um pouco sobre cada canção. Assim, não há motivos para não fazer desta resenha uma análise faixa-a-faixa.

“Nabatea” é o primeiro single e também a faixa de abertura. Conta a história de Nabateia, uma civilização que existiu nos primeiros séculos depois de Cristo. Segundo Andi, autor da letra, eles foram talvez a primeira democracia do mundo, e esta história daria uma ótima música – e realmente deu. Num caso raro hoje em dia, o Helloween escolheu uma faixa sem apelo comercial para fazer de single. Nesses tempos em que a moda das bandas de metal é lançar clipes insossos apenas com imagens do grupo tocando em um ambiente escuro, é preciso aplaudir a iniciativa de lançar um vídeo dinâmico para um single com letras de alto teor cultural.

Mas o Helloween nunca foi uma banda de letras fracas, de qualquer maneira. E isso se reafirma na faixa seguinte, “World of War”, uma crítica direta às guerras sustentada por um instrumental bem poderoso e rápido, fazendo desta uma das melhores do álbum – excelente escolha para estar logo no início.

A qualidade cai um pouco na terceira faixa, “Live Now!”. Mas a própria banda admitiu que esta música era mais “pop” – tanto que o guitarrista Sascha Gerstner pensou de início que a canção não encaixaria no novo álbum, tendo que retrabalhá-la um pouco para que ficasse mais a cara da banda e do disco. Bom, se o resultado final foi este, talvez seja melhor nem ouvir a versão original. Na verdade, ouvindo o álbum inteiro, era esta a música que qualquer um esperaria como single, mas, felizmente, o quinteto fez uma escolha melhor e mais atraente.

A quarta música, “Far from the Stars”, recupera toda a energia de “World of War” e adiciona uma letra mais abstrata, que fala sobre acreditar naquilo que faz você querer seguir em frente. Outra candidata a melhor do disco.

“Burning Sun” não é nenhuma novidade: já havia sido lançada pela banda em um EP que leva seu nome. É uma música forte (especialmente os vocais de Andi), mas morna se comparada com o resto do álbum. Provavelmente, vai agradar aos fãs, por ser uma faixa típica do Helloween, mas não necessariamente será lembrada em shows posteriores à turnê do álbum. Ganha destaque aqui o trabalho sinfônico nos teclados, que é substituído pelo órgão na versão feita desta música para homenagear Jon Lord, finado ex-tecladista do Deep Purple. A versão vem como faixa bônus na edição limitada.

“Waiting for the Thunder” gira em torno do piano, lembrando “If I Could Fly”. Pela ótica comercial, também renderia um bom single, pois, diferente do single de The Dark Ride, as teclas aqui acabaram dando um tom “moderninho” ao trabalho.

“Hold Me in Your Arms”, como o nome já sugere, é a balada de Straight Out of Hell. A letra, bastante melosa, junta-se a uma instrumentação emotiva para criar a faixa mais “bonitinha” do disco – o momento mais belo é um curto solo de piano seguido de outro de guitarra e acompanhados por uns dedilhados no violão.

A curta “Wanna Be God”, que também já havia sido apresentada no EP, pode (e vai) soar bastante estranha para os fãs da banda. Os primeiros 3/4 da música são preenchidos apenas pela voz de Andi (duplicada no refrão) e as batidas meio tribais de Daniel Löble, sobrepostos a um ruído de fundo que sugere um estádio lotado. Tudo isso junto cria um forte clima glam. Só no fim é que as guitarras entram – sem o baixo. Parece familiar? Pois é, a música é sim uma homenagem ao Queen, mais precisamente ao finado vocalista Freddie Mercury. Ela foi composta para ser parecida com “We Will Rock You”, mas sem perder os toques do Helloween. O único defeito da faixa é justamente ser diferente demais, adquirindo um quê de peixe fora d’água se comparada com o resto do disco. Faria mais sentido deixá-la como faixa bônus, junto com a outra homenagem do disco ou, no máximo, como encerramento.

A faixa título brinca com clichês do heavy metal, como pode ser percebido na letra, meio clichê. Mas a música em si não se destaca muito em relação às outras, exceto pelo fato de levar o nome do álbum.

Em “Asshole”, a banda coloca o pé no freio e entrega uma música de ritmo mais lento, voltando as atenções ao peso. Com agressividade, o criador da letra, Sascha, parece mandar um recado para alguém no refrão, que não economiza ofensas: “você é um babaca [...], você é um otário [...], seu filho da puta”.

O álbum é fechado com uma enérgica tríade de músicas rápidas e poderosas: “Years”, “Make Fire Catch the Fly” e “Church Breaks Down”. Esta última segue a linha de “World of War” e faz fortes críticas, desta vez (bingo!) à Igreja e aos crimes que cometeu através dos séculos.

Como faixas bônus, a edição limitada traz a já mencionada versão de “Burning Sun” com um Hammond e “Another Shot of Life”, também retirada do EP. Esta é relativamente lenta e agressiva, mais para o metal do que para o power.

Nota = 9. Basta apenas uma escutada para ter certeza de que este é o melhor álbum que o Helloween fez desde a virada do século, mesmo com um ou outro tropeço desnecessário como “Live Now!”. Com efeito, Straight Out of Hell é o resultado do desenvolvimento que se iniciou com os dois álbuns anteriores (Gambling With the Devil e 7 Sinners), conforme o guitarrista Michael Weikath já havia dito ao anunciar o lançamento. Ele também disse que as canções iriam “impressionar até os ouvidos mais preguiçosos” – na verdade, vão impressionar não só os preguiçosos, mas também os chatos que decretam que a banda morreu nos anos 90. Alguns usarão a reclamação clichê de que o álbum investe em uma fórmula… clichê. Mas por que justamente a banda que mais ajudou a elaborar essa fórmula não teria esse direito?

Abaixo, a faixa “World of War”:

10 Respostas para “Resenha: Helloween lança seu melhor álbum em anos com “Straight Out of Hell”

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  3. Kiske x Deris? Mas eu nem falei no Kiske, pois não há parâmetros para comparações entre ambos, as distâncias técnicas são abissais. Além do mais, eu gosto da fase inicial do Deris, acho o Master maravilhoso e que o Time beira um clássico, mas acredito também que no ótimo Better ele dava demonstrações de fadiga, fui àquela turnê e pude ver de perto ele se matando – desafinando e ficando sem fôlego – para cantar a altíssima Push e a ótima Falling Higher, músicas boas, mas para as quais a voz não foi feita.
    Quando digo que o Helloween fez um disco mais do mesmo me refiro ao fato deles não arricarem nada além daquilo que já fizeram. Nesse novo disco temos músicas melódicas que remetam à fase clássica, músicas tocas – como Asshole – que remetem à cruesa do Sinners, um excelente Hard que nos faz desejar um novo Master e a World of War que se tivesse sido lançada no Gambling seria perfeita. Ou seja, não reclamo do Helloween marcar ponto na sua fórmula, mas me recinto do fato deles não criarem nada novo – ou revolucionário – como sempre foi caracterísco deles.
    Além do fato da voz do Deris parecer cada vez mais inadequada à banda, pois como querem fazer metal com um vocalista – não, o Deris não pode ser considerado cantor – que não os acompanha. Eu nem acho um crime ele cantar as músicas do Kiske em tons mais graves, do contrário, fazer isso demonstra certo bom senso, o que me desaponta é o fato dele compor e gravar linhas vocais que ele não consegue reproduzir ao vivo. E digo isso como quem já o viu ao vivo algumas vezes. Para constatar basta ir ao youtube e vê-lo vociferando Burning Sun, e assim foi com Kill it, Push, Falling Higher, acho que ele não precisa disso, nem o Helloween precisa provar que sabe fazer metal, a banda deixou clássicos eternos na história do Rock pesado, como os Keepers e o fabuloso albúm de renassimento Master of the Rings, nesse albúm aliás está uma das minhas canções preferidas da banda, Sole Survivor, onde o Deris demonstra que pode cantar de forma melódica e cadenciada, sem esgoelamentos, e fazer uma canção rápida, melódica e DEFINITIVAMENTE maravilhosa.
    Repare mais uma vez que não o comparei em momento algum com o Kiske, muito embora minhass referências sempre sejam os que me desafiam e não os que consigo copiar sem grandes esforços e é nesses como Kiske, Coverdale, Hagar e, óbvio, DIO. Repare que nenhum deles é cantor de metal, o que me deixa muito à vontade para falar que o lugar do Deris não é no metal, é no Hard.

    • Eu sei que você não falou, mas a maioria fala, muitos gostam de fazer a infeliz comparação. Por isso eu comentei.

      O Helloween não fez revolução sempre. Os únicos álbuns realmente revolucionários deles são os Keepers, porque são considerados o marco inicial do power. Outros álbuns podem ter sido, no máximo, uma revolução dentro do próprio Helloween, mas nada que alguém diga: “puxa, nunca ouvi nada assim de nenhuma banda do mundo”. Mas é aquela coisa, se o Helloween lançar algo revolucionário, você pode até aplaudir, mas muitos vão dizer “aff, que bosta, cadê o Helloween antigo?”. Isso acontece com a maioria das bandas, se lançam algo igual, vão xingar porque estão repetitivos, se lançam algo novo, aí xingam porque mudaram.

      Eu respeito muito o Andi, especialmente porque ele escreve ótimas músicas. Se ele será capaz de cantar “World of War” direitinho ao vivo, isso é assunto para uma resenha sobre o show onde isso acontecer. No álbum, tá tudo bem com ele. Eu até poderia ter questionado isso na resenha, poderia ter dito algo como “será que o Andi conseguirá cantar isto ao vivo?”. Mas a avaliação do álbum continuaria sendo a mesma, porque eu não sou vidente.

      Por fim, acho que cabe à banda decidir se o Andi está bem nela ou não. Eu gosto do jeito que está, e, se o cara já está lá há quase 20 anos, então acho que todos na banda também concordam que ele está bem.

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  5. Pô, desculpe-me discordar, mas não gostei do novo disco. Ele tem até boas músicas, mas não é o Helloween. Mesmo que em alguns momentos nos remeta a fase inicial com o Deris, que na minha opinião é ótima. Mas no todo é mais do mesmo, com o Andi nos maltratando os ouvidos com suas linhas equivocadamente altas e em outras horas preguiçosas. Do disco detacaria apenas a Waiting for the Thunder, por sua pegada mais Hard e pela linha vocal maravilhosamente acertada pelo Andi, que quando quer sabe fazer o seu melhor, com um vocal menos agressivo e mais melódico, contudo mais grave e cadenciado.
    É um disco audível e na verdade você pode até passar bons momentos com ele, mas certas músicas poderiam ter ficado de fora, como as equivocadas Wanna Be God e Asshole, além da desnecessária “homenagem” ao Lord com a péssima Burning Sun versão Hammond, pois nessa música o Deris dispensa toda sua inaptidão vocal gritando desnecessariamente e nos maltrata com seus falsetes inadequados, que ele não consegue reproduzir ao vivo.

    • Bom, concordamos ao menos quanto à desnecessidade de algumas coisas no álbum. Eu nem eliminaria “Wanna Be God”, ela até é bacana enquanto tentativa de homenagear o Queen, mas não deveria estar no meio do disco. Tinha que estar nas faixas bônus.

      Quanto a ser mais do mesmo, vou repetir o que disse no final do texto: foram eles que criaram a fórmula, então dou a eles todo o direito de abusar dela. Não que outras bandas também não possam, mas não são eles que devem ser culpados pela fórmula ter virado um lugar-comum.

      A discussão “Kiske x Deris” infelizmente sempre existirá, assim como “Dickinson x Bayley”, “Tolkki x Kupiainen”, “Tarja x Anette”. Eu prefiro não discutir pra ver quem é melhor, e sim saber apreciar cada um. eu tenho minhas preferências (ex: preferia Anette em vez de Tarja), mas prefiro apreciar as qualidades de cada uma em vez de desprezar o material que cada uma produziu.

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